Mostrando postagens com marcador Educação. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Educação. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Dia dos Professores


Aos Mestres.


 Feliz Dia dos Professores
O País da Diversidade, de tantos povos que aqui se misturam numa riqueza cultural de valor incalculável, tinha que se tornar o país da "EDUCAÇÃO". A Nação brasileira tem a capacidade e a oportunidade de cultivar  as sementes dos saberes ancestrais, vindas de todos os continentes, e lançá-las ao futuro da humanidade.
 Nossos Mestres  jardineiros, dos sábios anônimos  das aldeias e sertões até os mundialmente conhecidos e respeitados, Paulo Freire, Rubem Alves, Darcy Ribeiro e tantos outros professores inesquecíveis, conheceram e ampliaram os instrumentos de uma educação libertadora.
Neste dia honramos o trabalho dos antigos e dos contemporâneos que mantêm sua herança a duras penas.
Lamentamos que as lições  ruins, dos dirigentes políticos que deseducam o povo com seus mais exemplos, ainda dominem e atravanquem a caminhada para um futuro sustentável . E, principalmente, reafirmamos  a esperança de que possamos superar todos as dificuldades, criar uma nova "EDUCAÇÃO" para um novo milênio  e realizar plenamente nosso destino. Colegas professores hoje é nosso dia . Amanhã se D-S quiser, será de todos.


Marina Silva.


segunda-feira, 16 de setembro de 2013

(Carlota Joaquina) "A Incompreendida"

Da Série Carlota Joaquina.



A incompreendida

 Carlota Joaquina de Bourbon e Bragança, mulher de Dom João VI, continua uma personagem pouco conhecida da nossa história. A exposição na mídia ajudou muito a popularizá-la, mas pouquíssimo compreendê-la. Nas duas produções, os autores reproduzem a imagem da princesa do Brasil como uma mulher muito feia, ambiciosa, libidinosa, adúltera e que, sobretudo, odiava o país. Mas volumosos conjuntos de cartas de Carlota Joaquina, guardados no arquivo histórico do Museu Imperial em Petrópolis (RJ) e nos arquivos portugueses e espanhóis, contam uma versão bem diferente.

Como parte de um acordo entre as coroas ibéricas, a espanhola Carlota foi enviada aos 10 anos a Lisboa para casar com o infante português Dom João. Com o marido introvertido e depressivo ausente do centro de poder, recolhido nos palácios de Mafra e Vila Viçosa, Carlota passou a ter um papel político relevante na adolescência. Defensora do absolutismo, numa época em que crescia a influência dos liberais ingleses na corte, ela negociou o apoio da França e da Espanha para assumir o poder em Portugal.

Mas,  o agravamento da crise política na Europa e a iminente invasão francesa – que obrigou a família real fugir de Portugal – cancelaram suas ambições políticas. Em 1807, a viagem para o Brasil significou para Carlota o exílio. Longe dos pais, dos amigos e partidários políticos, ela não via mesmo muitos motivos para gostar do Brasil.

Vivendo no Rio de Janeiro, Carlota recebeu a notícia da invasão da Espanha pelas tropas de Napoleão e a prisão de toda a sua família. Em 1808, com apoio do almirante inglês Sidney Smith e membros da elite criolla de Buenos Aires, Carlota pleiteia a regência da monarquia espanhola, para liderar a oposição à invasão francesa e governar o império espanhol, estabelecendo a sede da monarquia em Buenos Aires, capital do vice-reino do Rio da Prata
.
Em geral, os historiadores consideram essa interferência política fruto de sua ambição pessoal e do desejo desenfreado de poder. Entretanto, a correspondência entre ela e os intelectuais portenhos, que se tornaram defensores do “carlotismo”, mostra o contrário. Em 1809, Saturnino Rodrigues Peña, escritor e político portenho escreveu: “A senhora dona Carlota, princesa de Portugal e do Brasil e infanta da Espanha, tem uma educação ilustrada e os sentimentos mais heróicos. É impossível ouvir falar dela sem amá-la; não possui uma só idéia que não seja generosa: em uma palavra parece prodigiosa a vinda da digna princesa, sua educação, suas intenções e demais extraordinárias circunstancias que a adornam; em cuja virtude não duvido, nem V.S. deve duvidar que essa seja a heroína que necessitamos.

As cartas mostram que a relação com o marido, outra fonte de polêmicas, também tinha momentos de carinho. Em bilhete enviado à mulher, em 1813, dom João se expressa de forma afetuosa: “Meu amor, estimei infinito a tua carta por ter a certeza de que estás boa e nossos filhos. Eu passo bem e nossos filhos e neto. Quanto ao que me dizes a respeito do furto dos pretos, aprovo o que fizeste, e adeus meu amor.”

Por que, então, a historiografia brasileira criou essa caricatura menor para representar Carlota Joaquina? Ao invadir a esfera pública, espaço proibido ao sexo feminino na época, Carlota perdeu todos os predicados inerentes às mulheres, como, feminilidade, beleza, recato e bondade. Eis o motivo pelo qual muitos artistas ao representá-la, fiéis a esses estereótipos, retratam feições marcadamente masculinas.


Além disso, há o componente ideológico. No século 19, as interpretações do passado tornaram-se ferramentas políticas na criação das identidades nacionais nos países que surgiam. No Brasil, não foi diferente. Carlota Joaquina, uma rainha portuguesa que manteve a identidade espanhola, que foi contra a vinda da família real para o Brasil, que declarou sua alegria com a volta a Portugal, que se recusou a jurar a Constituição portuguesa e defendeu o absolutismo até o fim, certamente não servia para ocupar o pódio dos personagens dignos da memória nacional brasileira.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Ditaduras latinas

O golpe chileno na vida de três vítimas de Pinochet

O golpe que derrubou o governo socialista de Salvador Allende completa 40 anos sem trazer respostas para a morte do poeta Pablo Neruda, do músico Víctor Jara e do general Carlos Prats.

As primeiras notícias de que algo grande acontecia vieram antes de o Sol nascer. Falava-se que a Marinha havia se insurgido em Valparaíso, mas que o Exército seguia leal ao presidente. A verdade é que o dia 11 de setembro de 1973 começou sem que se soubesse como tudo ia acabar - uma dúvida que não existia mais na hora do almoço. O levante era da totalidade das Forças Armadas, encabeçado pelo general Augusto Pinochet. Sua subida ao poder teve momentos violentos, com bombardeio ao palácio do governo e o suicídio do presidente do Chile Salvador Allende.

"Depois daquele dia, quando você saía na rua, encontrava um país diferente. As pessoas estavam silenciosas, sem saber em quem confiar, pois o amigo de ontem podia se revelar um espião", diz o poeta Jorge Montealegre. Ele tinha 18 anos quando Allende foi deposto. Duas semanas após o golpe, Montealegre tornou-se um dos milhares de chilenos enviados à prisão política. A repressão torturou mais de 40 mil pessoas, deixando um rastro de pelo menos 3 065 desaparecidos e mortos já reconhecidos pelas investigações realizadas desde os anos 90.


Da esquerda para a direita: o poeta Pablo Neruda, o músico Víctor Jara e o general Carlos Prats.

Muitos pereceram em condições misteriosas. Alguns personagens mortos eram muito famosos: o poeta Pablo Neruda, o músico Víctor Jara e o general Carlos Prats. Cada um deles havia dado sua contribuição para Allende e os três morreram pouco tempo após o golpe. Não se sabe o que matou Neruda. Não se sabe quem matou Jara. Os familiares de Prats até conhecem o culpado, mas convivem com a impunidade dos responsáveis. Seus casos continuam a ser investigados - parte do triste fim de uma das democracias mais sólidas da América do Sul.

Oásis democrático

Desde 1932, o Chile realizava eleições sequenciais - contrastando com os instáveis vizinhos com seus caudilhos - e costumava atrair asilados a Santiago, incluindo brasileiros, como Fernando Henrique Cardoso. Em setembro de 1970, os chilenos testaram os limites de seu sistema eleitoral: em plena Guerra Fria, o médico e senador socialista Salvador Allende venceu o pleito com um programa que buscava uma transição inédita ao socialismo - sem pegar em armas e usando leis já existentes para fazer as reformas. Allende tornou-se o primeiro presidente marxista eleito no mundo, à frente da Unidade Popular (UP), coligação liderada pelos socialistas e comunistas. Temendo uma nova Cuba, os EUA não tardaram a agir. A alternativa mais rápida era dar suporte a um golpe. A UP tinha um cenário interno hostil. Numa briga de três candidatos, a vitória veio sem maioria absoluta, com 36,6% do eleitorado. Sem segundo turno, o resultado precisava ser confirmado pelo Legislativo. Às vésperas da reunião dos congressistas, um grupo radical de direita assassinou o comandante do Exército, general René Schneider, que havia prometido respeitar o resultado das urnas. O atentado não impediu a posse, mas sinalizou o que viria.

Henry Kissinger, secretário de Estado norte-americano, perguntou: "Por que temos que ver um país virar marxista pela irresponsabilidade de seu povo?" Chu En-Lai, o primeiro-ministro chinês, alertou: "Cuidado, vocês estão indo muito rápido". As frases ajudam a entender o processo que levou à derrubada de Allende na metade do seu mandato de seis anos: por um lado, os boicotes estrangeiros; por outro, os passos grandes demais nas reformas econômicas.

A gestão da UP começou em novembro de 1970 e, antes de o ano acabar, já havia expropriado sua primeira fábrica. Depois, acelerou-se a reforma agrária. Nos dois casos foi usada a legislação existente, mas com um rigor nunca visto. Até Fidel Castro desembarcou no Chile, em sua primeira visita a outro país do continente após Cuba se declarar socialista. A maior vitória do governo veio em julho de 1971: mesmo dominado pela oposição, o Congresso aprovou por unanimidade a estatização das minas de cobre, até ali em mãos de empresas norte-americanas.

Logo as reformas saíram do controle. Sabendo que o governo não os reprimiria, camponeses sem-terra ocuparam fazendas que não se enquadravam na lei de reforma agrária, e operários fizeram o mesmo em fábricas cuja expropriação não se justificava legalmente. "Essa revolução vinda de baixo com frequência coincidia com, ou complementava, mas cada vez mais divergia da revolução legalista e modulada vinda de cima", escreveu o historiador norte-americano Peter Winn em A Revolução Chilena.

Além disso, não havia reservas suficientes para sustentar tantas estatizações. O problema se agravou quando os norte-americanos fizeram lobby para derrubar o valor do cobre e seus bancos cortaram o crédito ao Chile. O governo imprimiu mais dinheiro. Como se não bastasse, uma greve de caminhoneiros piorou a escassez de alimentos e a inflação. A partir de abril de 1973, os preços subiam, em média, mais de 1% ao dia.

A carestia pressionava mais o bolso da classe média. Nas periferias, o governo conseguia distribuir alimentos a preço tabelado. Sem a classe média, a UP perdeu apoio de um setor volátil e estratégico para se viabilizar politicamente. Até os partidos moderados de oposição fecharam os canais de diá-logo. Querendo insuflar os militares, grupos de ultradireita deram início a atentados terroristas. Estava pavimentado o caminho para o golpe.

No final de 1972, com o país já em crise, um episódio entrou para a história do Chile e reuniu três figuras marcantes. No Estádio Nacional, que na ditadura viraria campo de prisioneiros, Pablo Neruda foi recebido em triunfo em sua primeira aparição pública após ganhar o Nobel de Literatura. A organização do evento esteve a cargo de Víctor Jara. Quem discursou em nome do governo foi o general Carlos Prats. Neruda regressava ao Chile após dois anos como embaixador na França. Apesar de ser mais conhecido pela literatura, era um veterano na diplomacia e na política: em 1939, havia sido responsável direto por trazer a Santiago mais de 2 mil refugiados da Guerra Civil Espanhola. Na década seguinte, virou senador pelo Partido Comunista.

Esse passado mudou o perfil das arquibancadas naquela tarde de dezembro. Embora Neruda estivesse acima dos partidos, o público visto no estádio foi menor que o esperado. Na época, a discórdia aparecia até dentro da UP: Allende e os comunistas pediam calma e buscavam diálogo com a oposição, mas os socialistas defendiam a necessidade de acelerar o processo, mesmo se isso atropelasse as leis. Neruda fez uma leitura acurada do momento. Citando o caso espanhol, discursou sobre o horror de uma guerra civil, que temia para seu país. Enquanto falava, era observado atentamente por Prats, que pouco antes havia feito seu pronunciamento.

O general e o poeta

Allende não estava lá. O evento coincidiu com sua visita à ONU, onde denunciou os boicotes sofridos pelo Chile: "Somos vítimas de ações quase imperceptíveis, disfarçadas com frases e declarações que exaltam o respeito à soberania e à dignidade de nosso país. Mas nós conhecemos na própria carne a enorme distância que há entre essas declarações e a realidade".

Carlos Prats González assumira o comando do Exército após o atentado contra René Schneider. Assim como o antecessor, pregava a defesa do governo democrático: "As Forças Armadas não são uma opção ao poder enquanto existir um regime legal", afirmava. Prats tornou-se tão importante para repelir tendências golpistas que, durante a greve dos caminhoneiros de outubro de 1972, foi nomeado ministro do Interior - cargo, na prática, equivalente ao de vice-presidente.

O general cumpria essa função no final do ano, quando Allende viajou e Neruda voltou ao Chile. A presença de Prats tranquilizava os chilenos, em especial os da UP, mas no Estádio Nacional ainda houve lugar para o medo. Entre as apresentações previstas para a tarde estava a execução da 1812 Overture, composição de Tchaikovsky cuja partitura original inclui tiros de canhão. Nos camarins, os artistas que não conheciam esse detalhe se assustaram com os disparos. Anos depois, o bailarino Patricio Bunster afirmou: "Todos começaram a gritar e chorar. Acreditávamos que vinha o golpe".

O Músico

Os detalhes do evento ficaram a cargo de Víctor Jara. Filho de camponeses, havia se mudado para Santiago ainda menino e, na juventude, entrou na faculdade de teatro. Jara começou a tocar violão e cantar, atividade que ofuscou sua carreira como diretor: nos anos 60 já era um dos cantores mais famosos do Chile - e o mais polêmico. Comunista, esteve na comissão que criou o hino de campanha de Allende.

Em 11 de setembro de 1973, Jara estava na Universidade Técnica do Estado (UTE), onde trabalhava. Allende visitaria o campus naquela manhã e pretendia convocar um plebiscito para decidir se continuava ou não seu mandato. A notícia antecipou o levante militar - o golpe seria menos aceitável pela opinião pública depois do anúncio de Allende. Foi das janelas da UTE que Jara soube que não haveria plebiscito: viu os caças da Força Aérea dispararem mísseis contra o palácio de La Moneda, a sede do governo.

No fim de agosto, apenas 18 dias antes, Prats havia renunciado ao comando do Exército - seu sucessor foi Augusto Pinochet, cuja lealdade nunca havia sido questionada, embora já conspirasse em segredo. No dia 11, a Marinha se insurgiu antes das 6h da amanhã, e o mito de um Exército leal seguiu até perto das 9h, quando as rádios emitiram um comunicado exigindo a renúncia do presidente. Allende recusou-se a renunciar. Em seu último pronunciamento pelo rádio, declarou-se traído e pediu que os chilenos não arriscassem a vida tentando resistir ao golpe. Não querendo cair vivo nas mãos dos militares, suicidou-se após ordenar a rendição aos seus colegas na defesa do palácio. Com a cidade sitiada, a UTE permaneceu sob cerco do Exército, sem que ninguém pudesse sair. Na manhã seguinte, quem se encontrava no campus foi preso e levado a um ginásio próximo. Jara estava entre eles.

A morte de Jara virou lenda. Na versão mais conhecida, ele teria sido fuzilado enquanto cantava o hino da UP, no centro da quadra. O músico na verdade foi levado aos vestiários, longe dos outros prisioneiros, e não voltou vivo. Seu corpo apareceu na manhã de 16 de setembro, com 44 furos de bala. Não seria a única execução sumária da ditadura, mas o fato de acontecer contra um músico assustou a todos. "A quem ocorreria a ideia de matar um cantor? Isso só servia para demonstrar até onde a ditadura estava disposta a ir", diz Eduardo Carrasco, do Quilapayún, banda que tocou com Jara nos anos 60.

Mistérios

Até hoje, as investigações não conseguiram determinar quem deu a ordem de executar Jara. Só em dezembro de 2012, 40 anos depois, a Justiça exigiu a prisão preventiva de oito oficiais envolvidos no crime. Ninguém foi condenado e o inquérito segue aberto. Neruda morreu no dia 23, em um hospital de Santiago. A notícia da morte apareceu no jornal El Mercurio ao lado de uma foto de soldados queimando livros "subversivos". O relato oficial falava em complicações de um câncer na próstata. Há pouco tempo, voltou à tona a hipótese de envenenamento - segundo seu chofer, Manuel Araya, o poeta teria piorado após receber uma injeção. Em abril de 2013, seu corpo foi exumado. As conclusões ainda não foram apresentadas.

Prats morreu em setembro de 1974, num atentado a bomba em Buenos Aires, onde se exilou. A emboscada foi armada pelo ex-agente da CIA Michael Townley, que depois mataria, em Washington, o ex-ministro de Defesa de Allende, Orlando Letelier. Ficou menos de seis anos preso nos EUA. Por contribuir com as investigações, nunca foi extraditado à Argentina para ser julgado pela morte de Prats.

Os acontecimentos de 11 de setembro de 1973

02:30 - Allende encerra reunião com assessores, em que se discutiu seu pronunciamento do dia seguinte. Está marcado para a manhã do dia 11 o anúncio de um plebiscito pela continuidade de seu governo - fato que fez os militares apressarem o golpe, previsto só para o dia 14.

03:00 - Uma rádio universitária, ligada ao governo, é invadida e destruída por militares para não transmitir mensagens contrárias ao golpe na manhã seguinte.

05:30 - Raúl Montero, comandante da Marinha que apoiava o governo, é mantido em prisão domiciliar pelos golpistas. O almirante Toribio Merino se proclama novo chefe da Armada. Começa o levante em Valparaíso.

06:15 - Allende é acordado por um telefonema informando dos fatos. Tenta contato com os três comandantes das Forças Armadas, sem sucesso.

07:35 - O presidente chega ao palácio de La Moneda. Quase na mesma hora, Augusto Pinochet desembarca no quartel de telecomunicações do Exército, de onde coordenará as ações do golpe.

07:55 - Allende faz seu primeiro pronunciamento do dia, pela Rádio Corporación: "Até o momento, não houve nenhum movimento anormal de tropas em Santiago", diz, baseado nas informações que possui. O presidente ainda tem a esperança de que o levante esteja restrito à Marinha.

08:15 - No rádio, Allende manifesta confiança nos "soldados da Pátria". Acreditando na lealdade de Pinochet, comenta fora do ar sobre o general: "Pobre Augusto, deve estar preso".

08:30 - Rádios de oposição transmitem o comunicado da Junta Militar, assinado por Pinochet e outros comandantes, contra a "gravíssima crise econômica, social e moral que está destruindo o país".

08:45 - Allende fala pela terceira vez na Rádio Corporación. Já sabendo que o golpe é insuperável, afirma: "Só me crivando de balas poderão impedir a vontade que é fazer cumprir o programa do povo".

09:05 - Um avião é oferecido para tirar Allende do país. Ele recusa. Em 1985, vaza a gravação das conversas de Pinochet com os comandantes que sinaliza que a promessa podia ser uma armadilha: "Está mantida a oferta... e o avião cai durante o voo".

09:10 - Allende fala pela última vez ao povo do Chile. As torres da Rádio Corporación já haviam sido bombardeadas pela Força Aérea e o áudio vem pela Rádio Magallanes. Sua voz está tranquila, mas também tem tom de despedida. O presidente pede que seus correligionários não arrisquem a vida nas ruas e garante: "Não vou renunciar. Pagarei com a minha vida a lealdade do povo".

09:30 - Em novo telefonema para oferecer um avião a Allende, ouve-se a voz do almirante Patricio Carvajal: "Temos que matá-los como ratos. Que não sobre nenhum rastro deles, em especial de Allende".

10:00 - O palácio de La Moneda é cercado por tanques de guerra. Vem o ultimato: o palácio deve ser evacuado até às 11h ou sofrerá bombardeio.

10:10 - Allende reúne os colaboradores no Salão Toesca e pede que não haja sacrifícios inúteis: ordena a retirada das mulheres e dos homens que não saibam usar armas.

11:20 - Em outro ponto de Santiago, a residência presidencial é bombardeada. Lá estava a primeira-dama Hortensia Bussi, que consegue escapar.

11:30 - A Junta Militar decreta estado de sítio.

11:52 - Com quase uma hora de atraso, começa o bombardeio de La Moneda. São disparadas ao menos 79 bombas e 57 mil tiros de fuzil.

12:15 - O bombardeio é interrompido. Durante o ataque, o jornalista Augusto Olivares, diretor da televisão estatal, comete suicídio. É a primeira morte no palácio.

12:50 - Reunidos dentro do palácio, os defensores discutem o que fazer. Decide-se enviar três homens para negociar os termos da rendição.

13:30 - Allende ordena que os demais defensores do palácio saiam pela porta que dá na Rua Morandé. Diz que será o último da fila. Enquanto os outros deixam La Moneda, porém, o presidente se retira para o Salão da Independência. Ali, usando um AK-47 que havia recebido de presente do presidente cubano Fidel Castro, Allende se suicida.

Cerca de 14h - Os militares anunciam que tomaram o palácio. Dos 56 prisioneiros, 24 sofreriam execuções sumárias ou desapareceriam nos dias seguintes ao golpe militar.


LIVRO

A Revolução Chilena, Peter Winn, Editora da Unesp, 2010.

"Muitas vozes"

"Muitas vozes" -  Análise da obra de Ferreira Gullar


 Esse livro representa uma ruptura temática dentro da biografia do escritor, diferenciando-se de grandes obras anteriores tais como "A Luta Corporal" (1954) e "Poema Sujo" (1976). Gullar sempre buscou novos caminhos para a poesia brasileira desde seus primeiros livros, tendo aberto espaço para a poesia concreta no país. Seu segundo trabalho, "A luta corporal" (1954), causou grande impacto no meio intelectual brasileiro por ter uma proposta gráfica muito inovadora para a época. Mais tarde o poeta iria romper com o concretismo e ajudar a criar o movimento neoconcretista, o qual também deixou de lado por volta da década de 1960. Assim, através de experiências diversas com a linguagem e o fazer poético, Gullar consegue firmar-se como um poeta de vanguarda dentro da literatura nacional.

Já em "Muitas Vozes" podemos ver uma poética mais madura. Nesta obra faz-se muito presente reflexões sobre a vida, a morte, memórias da infância, o silêncio e outros temas. Conforme o próprio escritor comentou, este é um livro em que a fúria presente em outras obras suas aparece mais amenizada e o tom geral do livro é de reflexão. O tema da morte, muito frequente no livro, pode ser reflexo das perdas enfrentadas pelo autor durante a década de 1990 – seu filho e sua primeira esposa haviam falecido nessa época. Porém, a morte não é vista com medo ou horror, mas sim como objeto de reflexão. Em contraste ao sentimento de dor e perda que o tema da morte traz, vê-se também a celebração da vida e do amor – Gullar havia encontrado um novo amor em sua segunda esposa, a poetisa Cláudia Ahimsa.

"Muitas Vozes" reúne  54 poemas divididos em quatro partes, sendo que a primeira não recebe nenhum título e as outras três são “Ao rés da fala”, “Poemas recentes” e “Poemas resgatados”. Ao contrário das outras partes, “Ao rés da fala” surpreende pelo ineditismo de alguns de seus temas. Nesta parte, Gullar trata de fatos marcantes em sua vida e chega a dedicar poemas a familiares seus, algo que ele jamais havia feito até então. Estão em “Ao rés da fala”, por exemplo, poemas que tratam de seu exílio no Chile e da morte de sua primeira esposa.

Por fim, convém ressaltar que após anos de experimentação literária e busca por novas formas de fazer poesia, Gullar volta a realizar em "Muitas Vozes" poemas metrificados e rimados – como pode-se notar mais fortemente na terceira parte do livro, “Poemas recentes”. Em seus livros anteriores, a maior preocupação era com a subversão da linguagem, buscando através da escrita “dizer o indizível”, como definiu o próprio escritor, e trazer em forma de poema a própria vida.

Já em "Muitas Vozes" a preocupação central de Ferreira Gullar parece ser a própria palavra e em diversos poemas ele apenas “escuta”, “observa” e “reflete” a vida. Assim, o título do livro pode ser compreendido como a reunião das “muitas vozes” que possuem a poesia de Gullar: as experiências com a poesia formal, o concretismo e neoconcretismo, as temáticas da morte, infância, vida e diversos outros aspectos da poesia do escritor estão todos presentes em "Muitas Vozes".

Poemas representativos
“Queda de Allende”
Nesse poema composto em três partes, Gullar volta a refletir sobre suas experiências no Chile. Na primeira parte do poema, o eu-lírico conta sobre o leite que comprou sem saber que nem chegaria a bebe-lo. Já na segunda parte ele fala que mesmo estando à caminho do movimento de resistência ao golpe político, entra na fila para comprar cigarro;. Por fim, na terceira parte o eu-lírico conta sobre os jovens que jogam futebol nos intervalos do tiroteio.

Ao contrário do sentimento de coragem ao defender o presidente Allende que se encontra no poema “Dois poemas chilenos” (do livro "Dentro da noite veloz"), aqui o eu-lírico se preocupa em garantir o sustento do dia-a-dia e observa os jovens que continuam sua vida sem se importar com os acontecimentos que os cercam. Assim, quem fala no poema é o homem comum, despido de qualquer ideologia ou mitificação política.

“Não-coisa”
Esse poema trata de um tema muito recorrente na poética de Ferreira Gullar que é a preocupação com o fazer-poético. Assim, esse é um poema metalinguístico, ou seja, que trata sobre o próprio ato de escrever poemas. Através de uma série de evocações sensoriais (olfato, visão, etc), o poeta chama a atenção para o fato de que um poema é um conjunto de palavras vazias e que só ganha sentido quando é preenchido pelas inúmeras vozes do “nós”. Essa pluralidade de vozes dentro de um poema também é motivo do poema “Muitas vozes”, que segue “Não-coisa”.

“That is the question”
Mais uma vez o poeta revisa um de seus poemas antigos. Aqui, Gullar reescreve “Dois e dois: quatro” (Dentro da noite veloz), um de seus poemas mais famosos. Em “Dois e dois: quatro” o clima é de mesmo diante das dificuldades deve-se lutar e seguir em frente, pois “a vida vale a pena”. Já em “That is the question” o poeta substitui a certeza matemática por uma pergunta que remete ao famoso “to be, or not to be: that is the question”, de Shakespeare, e reformulado por Oswald de Andrade no Brasil como “tupi or not tupi”. A certeza que se encontrava na ação política é substituída pela incerteza existencial e do próprio fazer literário. Aceitar ou detonar o poema significa aceitar ou negar a ilusão de que um texto é resultado da transformação de uma subjetividade (espaço íntimo onde o indivíduo se relaciona com o mundo social e externo). Tanto aceitando, quanto detonando o poema, ele estaria compactuando de alguma forma com a lógica burguesa contra a qual lutou em “Dois e dois: quatro”.

Comentário do professor
O professor Marcílio Lopes Couto, do Colégio Anglo, comenta que é importante ter em mente que Ferreira Gullar surge ligado à duas tendências: uma seria a poesia concreta e outra a temática social. Assim, sempre foi um destaque na obra do poeta o esforço de modernizar a linguagem poética e também o esforço de falar sobre a realidade brasileira. A obra "Muitas Vozes" pode ser vista como uma síntese de toda a poética de Gullar, estando presente os temas mais caros ao escritor e trabalhados de diversas formas e estilos.

Além disso, essa obra possui um caráter autobiográfico, onde Gullar trata sobre a infância, sexualidade, pessoas próximas à ele, familiares e outros temas íntimos numa tentativa de resgatar sua própria história. Porém, destaca o prof. Marcílio, ao falar de si próprio através e formas e conceitos estéticos variados, Gullar não abandona o outro e adquire um tom universal. Dessa forma, as “muitas vozes” pode significar também as diversas vozes que compõem o poema, além da do próprio escritor. Por fim, essas “vozes” também fazem referência ao próprio som, pois é um livro que trata muito sobre o barulho, o ruído, o som e, porque não, do silêncio.

Sobre Ferreira Gullar
José Ribamar Ferreira nasceu em 10 de setembro de 1930 em São Luís, Maranhão. Ao completar 18 anos, mudou seu nome para Gullar, uma adaptação do sobrenome de sua mãe, Goulart. Sobre a mudança de nome, Ferreira Gullar declarou que se tudo na vida é inventado, ele também inventaria seu nome.
Publicou seu primeiro livro, Um pouco acima do chão, em 1949, mas esta obra acabou sendo excluída de sua bibliografia oficial. No ano seguinte ganhou um concurso promovido pelo Jornal de Letras com o poema “O galo”. Em 1951, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde trabalhou como revisor na revista “O Cruzeiro”. Além dessa, trabalharia também em outras revistas e jornais.

Em 1954, publicou A luta corporal, chamando a atenção dos irmãos Campos e outros grandes nomes do movimento concretista. Dois anos depois, participa da I Exposição Nacional de Arte Concreta no Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP). Em 1959, publica o “Manifesto Neoconcreto” no “Suplemento Dominical” ao lado de Lygia Pape, Amilcar de Castro e outros.

Em 1964 filia-se ao Partido Comunista e funda o Grupo Opinião com Paulo Pontes e outros. Dois anos depois, a peça Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come ganha os prêmios Molière e Saci.
Ferreira Gullar é preso durante a ditadura militar em 1968 e parte para o exílio em 1971. Nessa época reside em Moscou, Lima e Buenos Aires, colaborando para o semanário “O Pasquim”. Em Buenos Aires escreve sua mais famosa obra, Poema Sujo, que foi publicada no Brasil em 1976 e serviu como um ato pela volta de Ferreira Gullar ao país. No ano seguinte, ele retorna ao Brasil. Desde então, o poeta publicou diversos outros livros e ganhou vários prêmios.


Suas principais obras são: "A luta corporal" (1954), "Dentro da noite veloz" (1975), "Poema sujo" (1976) e "Muitas vozes" (1999). Além dessas obras, Gullar publicou também contos, crônicas, peças de teatro e ensaios sobre arte e literatura.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Sabe qual foi o primeiro país a ter um exército oficial?



Os exércitos são mais antigos que o conceito de país e existem desde 2500 a.C., pelo menos. Os primeiros grupamentos organizados para defender territórios e atacar inimigos pertenciam a cidades-Estado da Suméria, no sul da Mesopotâmia - território que, hoje em dia, representa o Iraque e partes de Irã, Síria e Turquia. Com a expansão das civilizações na Mesopotâmia, o interesse em áreas estratégicas, como canais e terras produtivas, provocou disputas entre vizinhos. O ato de guerra passou a fazer parte das leis sumérias, com uma cidade-Estado neutra servindo de árbitra nas batalhas. Com as regras, surgiram alianças, dando origem a impérios que guerreavam com cidades estrangeiras. Civilizações da região, como acádios e babilônicos, começaram com exércitos de poucos milhares e expandiram territórios e forças militares aos poucos. Os primeiros soldados lutavam com lanças, machados e adagas, e os "tanques" da época eram carruagens, com um condutor e um guerreiro armado com dardo ou arco composto - feito com ossos, tendões ou feixes de madeira.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

A verdadeira história sobre a Cleópatra


Lendo descubro um monte de informações. Como foi  bom Ler este livro. Eu indico
Cleópatra - Uma Biografia, Stacy Schiff, Zahar



Novos estudos mostram que Cleópatra não era devassa, não morreu picada por uma cobra, era piadista, ótima estrategista... E estava longe de ser bela

Todos na cidade mediterrânea de Tarso já tinham ouvido os rumores. Fofoca sempre correu rápido. Por isso, uma multidão cada vez maior aglomerava-se nas margens do rio Cidno, em 41 a.C., para assistir ao espetáculo que, afinal, foi um dos mais incríveis da Antiguidade. Em meio a uma explosão de aromas e cores de nuvens de incensos, uma barcaça de popa dourada e velas púrpura, com dezenas de remos de prata, subia calmamente pelas águas turquesa. A batida dos remadores marcava o ritmo para a orquestra de flautas, gaitas e liras no convés. Lindas mulheres vestidas de ninfa trabalhavam no leme e nas cordas. Uma escolta de navios de suprimentos seguia atrás, levando louças de ouro, tapeçarias, joias caríssimas. 

Reclinada sobre um divã e abanada por graciosos meninos, vinha uma mulher de 28 anos, ornada como a Vênus de uma pintura. Era, talvez seja desnecessário dizer, a pessoa mais rica do Mediterrâneo. E também articulada, carismática, fluente em nove línguas, versada em política, diplomacia e governo, estrategista militar. Não exatamente bonita, mas dona de um grande senso de humor e de muito charme. Conquistava quem quisesse. O espetáculo era para seduzir mais um - que, a bem da verdade, estava longe de ser qualquer um. Afinal, Cleópatra, a rainha do Egito, não podia conhecer o general romano Marco Antônio, recém-convertido em um dos homens mais poderosos do mundo, de qualquer maneira. Esse era seu jeito de fazer as coisas: de forma surpreendente, sim, mas muito eficiente. 

Ela teve uma das pós-vidas mais movimentadas da História. "Já virou nome de asteroide, de videogame, marca de cigarro, caça-níqueis, clube de striptease, um esteriótipo... E sinônimo de Elizabeth Taylor", diz (sem citar clássicos, como a peça de Shakespeare), a escritora Stacy Schiff, autora do livro sobre a monarca, Cleópatra: Uma Biografia. 

No futuro, talvez o rosto da egípcia se confunda com o da atriz Angelina Jolie, já que a obra deve virar filme 3D, a ser lançado em 2013. Assim como fez Stacy, o esperado blockbuster promete desmontar vários mitos criados em torno da rainha: os de ser uma libertina e traiçoeira, de ter como principal atributo a arte da sedução e de ter morrido picada por uma cobra, entre tantos outros (embora o da estarrecedora beleza, com Angelina no papel principal, seja mais difícil de ser extinto). O problema de Cleópatra é que sua história foi contada pelos romanos - além de serem seus inimigos, eles acreditavam que apenas os homens podiam ser tão poderosos. 
A rainha

A primeira impressão é a que fica. E Cleópatra fascinou Marco Antônio, que acabara de vencer uma guerra civil ao lado de Otaviano contra os assassinos de Júlio César, tio do aliado. O próprio César havia se rendido aos encantos da rainha sete anos antes. O encontro deles, porém, foi mais inusitado. Cleópatra estava exilada no deserto da Síria. No primeiro ano de seu reinado ao lado do irmão e corregente Ptolomeu XIII, com quem se casara aos 18 anos (ele tinha 10) para garantir o trono na capital, Alexandria, em 51 a.C., o Egito sofria com secas e fome. A população se revoltou contra a monarca quando ela financiou uma campanha militar do general romano Pompeu, amigo de seu pai morto. E ela teve de fugir. Pompeu enfrentou justamente César, que, vitorioso, virou o homem forte de Roma e viajou para o Egito. Segundo o historiador da Universidade da Califórnia Stanley Burstein, autor de The Reign of Cleopatra (sem edição no Brasil), Roma precisava do dinheiro do rico país para custear seus altos gastos de guerra. César instalou-se no palácio de Ptolomeu XIII e, numa tentativa de estabelecer a paz egípcia, pediu aos dois irmãos que o encontrassem. Ptolomeu não aceitou e proibiu o retorno de Cleópatra. Ela, porém, ajudada por comparsas, navegou escondida por dias e, em Alexandria, enfiou-se em uma sacola usada para transportar papiros. Assim, foi "despejada" no quarto do cinquentão César. Não se sabe bem o que aconteceu lá. "Seja o que for, Ptolomeu sentiu-se traído ao ver Cleópatra sentada ao lado do romano", diz Burstein. Furioso, mandou cercar o castelo. 

O sítio durou seis meses e ajudaria a revelar a visão de estrategista da rainha. Como Duane Roller escreveu em Cleopatra: A Biography (inédito em português), sem apoio popular, Ptolomeu XIII foi preso e sua irmã Arsínoe tomou o trono. Chamado a conversar com César, ele se desmanchou em lágrimas, pediu clemência e comoveu o general. Mas logo acionou suas tropas contra o casal. O teatro não surpreendeu Cleópatra. Ao contrário: ela mesma teria sugerido a César fingir piedade e libertar Ptolomeu, prevendo que, ao insistir nos combates, ele se tornaria ainda mais impopular. A chegada de reforços romanos encerraria a Guerra Alexandrina. Ptolomeu XIII morreu tentando fugir e Arsínoe foi presa - depois seria executada a mando da irmã. Cleópatra terminou a temporada grávida de César. Era o primeiro filho do general, futuro ditador de Roma. O trono, claro, sobrou para Cleópatra, agora casada com seu outro irmão, Ptolomeu XIV. Era a forma que César encontrara "para abrandar a raiva romana por ele próprio estar indo para a cama com ela", afirma Stacy. 

Nada poderia ser melhor ao projeto político da faraó do que gerar esse filho, Cesário. "A aliança com César, envolta em sedução e romance, foi, antes de tudo, um ato político bem planejado e de expressivas consequências", afirma Maurício Schneider, doutor em egiptologia pela USP. "A rainha conseguiu vencer a oposição, se firmar no trono e ainda arrastou o romano para seus objetivos imperiais, dando-lhe um filho." (Mais tarde, Ptolomeu XIV seria envenenado e Cesário se tornaria corregente da mãe.) Seu reinado seguiu de vento em popa. Ela governava com pulso firme. "Ministrava a justiça, comandava o Exército e a Marinha, regulava a economia, negociava com poderes estrangeiros e presidia os templos", diz Stacy. Ganhou o apoio dos súditos com a economia próspera e fez crescer também seu patrimônio, herdado da família e construído, sobretudo, em transações comerciais. Por ano, calcula-se, seus rendimentos batiam 15 mil talentos de prata. Um sacerdote, cargo dos mais cobiçados, ganhava 15. Em valores atuais, a fortuna alcançaria 96 bilhões de dólares (quase o valor do orçamento deste ano do governo brasileiro para investimentos). A vida de Cleópatra mudaria quando seu amante foi assassinado pelos senadores romanos, em 44 a.C. Seguiu-se (outra) guerra civil, que terminou anos depois com a vitória de Marco Antônio e Otaviano e a instalação do Segundo Triunvirato. Foi quando a monarca fez sua triunfal apresentação a Antônio - e voltou a ganhar um amante poderoso.
 
A mulher

Diferentemente do que se imagina, a rainha do Egito estava longe de ser uma devassa. Júlio César foi provavelmente seu primeiro homem, e Antônio, o segundo (e último). Não há registro confiável de outros envolvimentos amorosos. Além de Cesário, ela teve mais três filhos, todos reconhecidos por Antônio: Alexandre Hélio e os gêmeos Cleópatra Selene e Ptolomeu Filadelfo. O relacionamento dos dois foi longo (11 anos) e, de forma geral, divertido. O casal adorava promover grandes banquetes. Eles fizeram um "pacto de boa vida" e apelidaram a si mesmos de Inimitáveis Viventes.

Cleópatra Thea Philipator ("deusa que ama o pai", um dos muitos títulos que se atribuiu) estava acostumada ao luxo e à fartura desde que nascera, em 69 a.C., segunda de cinco filhos (leia à pág. 29). O pai, Ptolomeu XII, ou Ptolomeu Auletes, era provavelmente um filho bastardo, da dinastia ptolomaica ou lagide, descendente do general, provador oficial e amigo íntimo de Alexandre, o Grande. A Ptolomeu I coube o controle do Egito após a morte do macedônio. Era o início da Era Helênica. Para garantir a própria legitimidade e provar sua ascendência divina, os ptolomaicos faziam como os deuses: casavam-se entre eles. Cleópatra, portanto, tinha sangue grego. Não se sabe quase nada sobre sua mãe, que desaparece na primeira infância da menina. Há dúvidas, inclusive, sobre quem ela seria. Criada por babás, a garota cresceu entre políticos e pensadores. Viajava muito com o pai e teve ótima educação. Podia recitar de cor a Ilíada e a Odisseia. Sabia aritmética, geometria, música e astrologia. Formou-se em retórica e aprendeu nove línguas, inclusive hebraico, troglodita (uma língua etíope) e egípcio (coisa que nenhum ancestral seu o fez).
 
Não se parecia nada (talvez a peruca) com Liz Taylor. "Não há retratos de Cleópatra, a não ser os bidimensionais das moedas que cunhou", diz Roller. "Elas mostram um nariz e um queixo proeminentes, características de família." Segundo o egiptólogo Júlio Gralha, da Universidade Federal Fluminense, isso pode também ser simbólico: ela queria ser vista parecida com os antepassados, de forma a legitimar seu poder. Para compensar a "feiura", era elegante e carismática. "O contato de sua presença, se se convivia com ela, era irresistível", escreveu o filósofo grego Plutarco. "Ela era astuta e inteligente, e isso era grande parte de seu charme", afirma Gralha. Sem contar o senso de humor. "Capaz de fazer os outros rirem mesmo sem querer", resumiu o orador romano Cícero.

Cleópatra foi careca em certos momentos (possivelmente durante as epidemias de piolho). Adepta das tradições locais, nessas ocasiões usava as perucas com as quais sempre foi retratada, embora um modelo com coque fosse mais provável. Costumava associar sua imagem à da deusa Ísis, dominava tratamentos de beleza (adorava os banhos de leite de jumenta) e maquiagem. Segundo Stacy Schiff, ela ainda era fascinada por venenos - estudava muito o assunto, consultava-se com químicos e médicos, sabia as propriedades de cada tipo, quais matavam mais lentamente...
 
A lenda

É impossível dissociar a história de Cleópatra à de Roma. Na península Itálica, as coisas não iam nada bem entre Otaviano e Marco Antônio. A relação era cordial apenas na aparência - Antônio até se casara com a irmã de Otaviano, Otávia, para tentar fortalecer a aliança. Só que ela degringolou de vez em 37 a.C., quando o general mudou para o Egito para viver com a amante. Lá, continuou a comandar seu exército e a conquistar territórios para Roma. Muitos deles, como a ilha de Chipre, parte do atual Líbano, terras na Líbia e na costa da Turquia modernas, porções de Creta e quase todas as cidades do litoral fenício, Antônio "deu" a Cleópatra - que, assim, dirigiu um território tão grande quanto o do auge da Era Helênica. Otaviano ficou uma fera. Ele tinha outra forte razão para odiar a rainha egípcia: ela era mãe do filho legítimo de César, uma ameaça ao seu poder em Roma. (Além de sobrinho de César, ele fora adotado como herdeiro direto.) Quando Marco Antônio pediu o divórcio de sua irmã, foi a gota d’água.

Otaviano começou então uma campanha contra Cleópatra - e, assim, deu início à série de lendas que surgiriam em torno dela. Na sua versão dos fatos, Antônio era um joguete nas mãos da monarca ardilosa, que pretendia conquistar Roma, como fizera com o general. Em outubro de 32 a.C., declarou guerra à rainha. Ela rumou com o amante para o front militar, na entrada do golfo de Corinto. Os romanos, porém, não aceitaram a presença de uma mulher no acampamento. Muitos desertaram, inclusive homens da confiança de Antônio, o que o deixou abalado. O problema aumentou com a Batalha do Ácio. Cleópatra propôs que, em meio ao confronto, seus navios (carregados com grande parte de seu tesouro) furassem o bloqueio e voltassem para o Egito - seguidos pela frota de Antônio. Quando o vento estava a seu favor, ela cruzou a linha inimiga e o general foi atrás dela, mas seus homens não o seguiram. Provavelmente porque estavam lutando no mar contra a vontade (eles preferiam a terra, Cleópatra insistiu no combate naval) ou porque achavam mais honroso continuar brigando pelo controle de seu país do que seguir uma estrangeira.

O fato é que Marco Antônio foi embora arrasado e seus homens perderam a guerra. "Passou-se quase um ano até que o exército de Otaviano entrasse em Alexandria", diz Stanley Burstein. "No intervalo, Antônio caiu em uma profunda depressão, enquanto Cleópatra eliminava os inimigos suspeitos (de conspirar contra ela e o amante)." A rainha também mandou construir um mausoléu às pressas. E teria iniciado um processo de negociação com Otaviano, oferecendo a abdicação em troca de clemência - o romano até concordava, mas queria a cabeça de Antônio. Nem na tormenta o bom humor do casal se dissipou: continuava a promover bebedeiras. Mas, apropriadamente, a dupla trocou o nome da Sociedade dos Inimitáveis Viventes para Companheiros da Morte. Quando Otaviano finalmente chegou a Alexandria, Cleópatra fugiu para o mausoléu, que já abrigava seu tesouro, e mandou um mensageiro dizer a Antônio que havia se suicidado. Sabia que, assim, ele se mataria também. "É claro que Cleópatra havia cedido ao pedido de Otaviano de sacrificar o amante em troca do Egito", diz Stacy Schiff. "Ela é acusada de tantas traições que é difícil saber como entender essa, talvez a mais humana e menos surpreendente."

Fórmula mortal

Ao saber da notícia, o general enfiou uma espada no peito, mas errou o coração e pediu ajuda dos criados, que o abandonaram. Ele teria descoberto que a monarca não estava morta, arrastou-se até o mausoléu e foi içado para dentro. Desesperada, Cleópatra teria gritado e esmurrado o próprio peito, enquanto Antônio morria em seus braços. Os homens de Otaviano invadiram o local em seguida e a prenderam. Dias depois, ela tomou veneno. A cobra que a teria picado é uma invenção, fruto da "conveniência metafórica" - o animal era símbolo do poder dos faraós. Pesquisa do historiador Christoph Schäfer, da Universidade de Trier, concluiu que ela mesma preparou seu coquetel: "Considerando os sintomas, foi uma mistura de acônito, uma planta tóxica, cicuta e ópio." Ganhou um pomposo cortejo um ano depois. Segundo o historiador romano Cássio Dio, a procissão superou todas as outras em "custos e magnificência". A rainha aparecia em seu leito de morte, em gesso pintado, junto com uma serpente. (Outra pista sobre como prosperou a versão da picada suicida.)

Cleópatra morreu em 30 a.C., mas desde agosto do ano anterior o seu Egito não existia mais. Era só mais uma colônia de Roma. E a campanha contra ela, iniciada em vida por Otaviano, consolidou-se após a sua morte. Os romanos atrelaram toda a história da última faraó à sua sexualidade. Afinal, era melhor pensar que a mulher mais poderosa do mundo no século 1 a.C. conseguiu quase tudo o que quis porque era incrivelmente sedutora - e não porque era incrivelmente inteligente.

Poder e sangue

A dinastia Ptolomaica (305 a.C. a 30 a.C.)

Os Ptolomeus se mantiveram no poder casando-se (e matando-se) entre si, entre 305 a.C. e 31 a.C. Na terra dos governantes que eram também divindades, os "estrangeiros" suaram para fabricar uma ligação com os típicos faraós. Por isso, os gregos ptolomaicos assumiram o casamento entre irmãos, um hábito egípcio. O incesto - desconhecido na Grécia, a ponto de não haver na língua uma palavra para isso - evitava "manchas" no sangue azul ou eventuais disputas pelo poder nas bodas com elites estrangeiras. Dos 15 casamentos centrais da dinastia, dez foram entre irmãos. Nos demais, sempre havia algum parentesco. As uniões, porém, não evitaram crimes violentos em conflitos sucessórios. A tia bisavó de Cleópatra VII era esposa e sobrinha de Ptolomeu VIII. Ele a estuprara quando ela era adolescente. Cleópatra perdeu a irmã mais velha, Berenice, morta pelo pai. Ela mesma foi responsável direta pela morte de dois irmãos.
 

Saiba mais... 

O lugar do feminino no Egito

As características da sociedade em que se destacou Cleópatra VII

Cleópatra VII serve até hoje de inspiração e modelo de mulher forte, determinada e que revolucionou uma época subvertendo o papel até então imposto às mulheres em uma sociedade na qual reinavam o silêncio e a submissão do feminino ao masculino.

Apesar de recorrente, a afirmação de que, no Egito antigo, homens e mulheres possuíam igualdade plena de direitos é falaciosa. Muito embora o espaço e a importância devotados a elas fossem muito maiores que os existentes em outras sociedades da Antiguidade, entre os egípcios existiam, sim, hierarquias de gênero. 

Ao longo da história egípcia, a deusa Isis foi o modelo de mãe e esposa a ser seguido. A lenda conta que o marido de Isis, Osíris (então governante do Egito), foi assassinado por seu irmão Seth e seu corpo foi esquartejado e espalhado por diversos lugares. Determinada, a deusa percorreu o país em busca dos membros a fim de trazer Osíris de volta à vida e gerar um herdeiro, Hórus. A deusa Hathor, por sua vez, simbolizava a natureza dual que os egípcios acreditavam existir nas mulheres: são benevolentes, símbolos de fertilidade e prosperidade, mas têm um lado perigoso e destrutivo, que deve ser apaziguado. Os Ensinamentos de Ptah-Hotep, um conjunto de máximas do século 18 a.C. sobre as relações humanas, orienta os homens a amar as esposas e deixá-las afastadas de posições de poder: "Reprima-a, pois seu olho é um vento de tempestade quando ela encara". 

O contexto em que governou Cleópatra, porém, não é o do esplendor faraônico. Trata-se de um Egito pós-dominação grega, bastante influenciado pela herança cultural da Grécia clássica e helênica. A tradição grega vê os espaços de destaque, especialmente na política, como masculinos por excelência. Nesse sentido, Cleópatra comportaria, na visão dessa sociedade, um desvirtuamento, o qual deveria ser condenado. Os escritos sobre a rainha mostram o olhar masculino sobre os sujeitos femininos, no qual características como agressividade, iniciativa e poder de decisão são atributos reservados aos homens, nunca às mulheres, das quais esperava-se submissão. A imagem de Cleópatra como uma mulher perigosa, cheia de ardis e pouco confiável, certamente foi construída por homens que julgavam o papel ativo de uma mulher na política algo intolerável. Mais interessante ainda é observar como sua imagem produzida pelo imperador romano Otávio Augusto destina-se, na realidade, não a disforizá-la, mas a diminuir seu então inimigo, Marco Antônio. Ao destacar as habilidades sexuais de Cleópatra e como Antônio deixou-se cair a seus pés, Otávio deixa desacreditadas as virtudes políticas de seu oponente, que teria provado ser fraco e não ter capacidade de liderança.

Ao tratar do feminino na Antiguidade, há que se ter cuidado: "A maioria das fontes históricas (do período) foi produzida por homens", diz o historiador Gregory da Silva Balthazar.

O império de Alexandre, o Grande, favorece um novo modelo de mulher, que mistura as tradições macedônicas, gregas clássicas e locais, no caso, egípcias. O papel da mulher no período helenístico já não é mais o da passividade e da submissão. Muitas assumem diversos reinos criados especialmente após a morte de Alexandre. As rainhas possuíam direitos e riquezas superiores aos comuns até então. Um caso interessante é de Arsínoe II, filha de Berenice I e Ptolomeu I, que se tornou rainha ao casar-se com seu irmão Ptolomeu II. Após a morte dele, Arsínoe tornou-se dona de um Exército, o qual comandou em batalhas com o intuito de assegurar a continuidade do poder para seus filhos, tornando-se uma regente bastante poderosa.

Falar sobre as mulheres no Egito antigo não é tarefa fácil. Esbarramos no silêncio das fontes, na sua visão masculina e nos limitadíssimos materiais acerca da vida de mulheres comuns, restringindo a análise, quase sempre, às "grandes", como Cleópatra. Mas o esforço é válido. Dando voz a essas mulheres, podemos inspirar diversas outras a lutar para diminuir, cada vez mais, a fenda que segrega o espaço feminino do masculino na sociedade atual.

* Maria Thereza David João é doutoranda em História Antiga e autora de Tópicos da História Antiga Oriental, entre outros livros e artigos publicados.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

A verdadeira história sobre o descobrimento do Brasil


Cabral tomou posse, mas chegou depois. Veja como a busca de um caminho para as Índias trouxe outros navegantes portugueses e espanhóis ao Brasil antes do descobridor oficial

Lisboa, 1502. Com a descoberta de um caminho marítimo para as Índias e de uma terra com proporções continentais do outro lado do Atlântico, a capital do reino de Portugal tornara-se um ponto de convergência para espiões de toda a Europa. A cada viagem, os navegantes portugueses entregavam suas anotações a cartógrafos do rei, que consolidavam toda a informação sobre a forma e os caminhos do mundo em mapas cada vez mais completos. Eles eram guardados a 7 chaves em locais como a Casa da Mina e das Índias. A pena de morte para cartógrafos que contrabandeassem mapas não impediu, porém, que o italiano Alberto Cantino conseguisse uma cópia do mapa mais completo que havia do mundo daquela época, uma "carta náutica para as ilhas recentemente encontradas na região das Índias". O espião contratou um personagem misterioso, que teria levado 10 meses para reproduzi-lo, e remeteu a obra ao duque de Ferrara, na Itália. A cópia entrou para a história como o Planisfério de Cantino e serviu de referência para outros mapas europeus do século 16. Com 218 x 102 cm, revelava um mundo nunca visto: grandes partes da Ásia e as terras descobertas por Colombo e Cabral na América. Misteriosamente, a carta também mostra detalhes do litoral norte brasileiro, que até 1502 não fora visitado oficialmente. O que sugere que o mapa foi elaborado com a ajuda de outros navegantes, que teriam chegado ao Brasil antes de Cabral.

Para entender como isso aconteceu, precisamos voltar um pouco mais no tempo, para o início do século 15. Nessa época, os europeus só sabiam navegar em algumas regiões, como o mar Mediterrâneo e as bordas do continente. Além daí, reinava o medo. "Havia desde sempre uma crença em monstros marinhos. Eles também acreditavam que havia zonas do mar em que não se pode navegar porque a água fervia ou porque os navios encalhavam", conta Francisco Domingues, historiador da Universidade de Lisboa, especialista em náutica da Era dos Descobrimentos. Até os mapas tinham coisas imaginárias, como uma misteriosa "Hy Brazil" (veja na página 35). Também havia, é claro, o medo do fim do mundo, que poucos julgavam ser redondo. Muitos navegantes que se aventuravam pelo Mar Oceano, como os portugueses chamavam o Atlântico, iam e não voltavam. Não por acaso, um dos maiores obstáculos à navegação daquela época era chamado de cabo do Medo, ou Bojador, na costa do Saara Ocidental.

Esse cabo e o medo da navegação atlântica começaram a ser vencidos na década de 1430, quando o infante dom Henrique, filho do rei dom João I, passou a incentivar o desenvolvimento da ciência náutica. Sob sua influência, os portugueses desenvolveram uma série de técnicas e de equipamentos que lhes permitiria realizar algumas façanhas. Um dos mais importantes foi a caravela, embarcação que, com duas ou três velas triangulares, podia navegar "à bolina", ziguezagueando "contra o vento". Em 1434, os homens de dom Henrique já haviam superado o cabo do Medo. Com as caravelas, eles foram - e voltaram - muito mais ao sul na costa africana. Na Guiné, nome com que eles chamam toda a costa noroeste da África, fundaram a feitoria de São Jorge da Mina, onde negociavam ouro, escravos, marfim e pimenta-malagueta. No século 15, essa foi a principal fonte de riqueza de Portugal.

Outra grande contribuição dos portugueses foi a navegação astronômica. Graças a um instrumento chamado quadrante - e mais tarde ao astrolábio - foram os primeiros a navegar longe da costa e descobriram que era possível voltar da Guiné mais depressa se contornassem os ventos contrários que sopravam na costa africana. Metendo-se em alto-mar, encontraram e povoaram os arquipélagos de Açores e Cabo Verde. Ninguém tinha tecnologia parecida. Era como se os portugueses fossem capazes de ir à Lua enquanto navegantes de outros países só conseguissem voar do Rio a São Paulo em teco-tecos. Os únicos marinheiros capazes de missões parecidas eram os vizinhos espanhóis.

Novas técnicas de navegação e as riquezas da África já eram suficientes para atrair a cobiça de outros países. E a capacidade marítima de Portugal ganharia ainda mais importância por causa da queda de Constantinopla (1453) e a limitação do comércio com a Ásia. Lisboa tornou-se destino de cartógrafos, astrônomos e navegadores de toda a Europa, interessados em participar da corrida para as Índias - entre eles Cristóvão Colombo, que viveu ali nas décadas de 1470 e 80. Todos os "descobrimentos do Brasil", até o oficial, foram um efeito colateral da busca pela rota para o Oriente.

As Índias ficaram mais próximas dos portugueses em 1488, quando Bartolomeu Dias dobrou o cabo das Tormentas - e o transformou no da Boa Esperança -, no extremo sul da África. A chegada de Colombo à América, 4 anos depois, deu início a uma crise diplomática entre Portugal e Espanha, a patrocinadora de Colombo. A rusga acabaria trazendo ao Brasil navios das duas bandeiras ainda no século 15.

Briga de Tordesilhas

Quando Colombo chegou às ilhas do Caribe, disse ter certeza de estar no Oriente, a um pulo do Cipango (Japão). O problema é que as ilhas, fossem orientais ou não, pertenciam a Portugal, segundo um tratado assinado com o reino de Castela em 1479. A descoberta lançou os dois países numa espécie de guerra fria, com armadas prontas para o combate. Durante dois tensos anos de negociação, dom João 2º, o rei lusitano, insistiu em garantir a soberania sobre o Atlântico Sul, com uma margem de 370 léguas a oeste de Cabo Verde. Seu esforço diplomático garantiu o acerto de Tordesilhas, em 1494, que deixou os castelhanos com as tais Índias Ocidentais e uma grande suspeita: dom João sabia da existência de alguma terra no Atlântico Ocidental, para defender tão obstinadamente seu direito à região onde hoje sabemos que está o Brasil?




Não há nenhuma evidência de que dom João 2º conhecia terras por aqui. Existem, porém, indícios de que Portugal estava explorando essas bandas desde o regresso de Bartolomeu Dias, em 1489. Um deles são registros de mantimentos, como uma encomenda de mil quintais de biscoitos (pão assado duas vezes, usado como alimento nas viagens), suficiente para abastecer 2 ou 3 caravelas por 2 anos. Outro indício vem de espiões castelhanos, que avistaram a saída de 4 caravelas da ilha da Madeira, em 1493, navegando para Oeste.

Apesar da falta de provas, vários historiadores acreditam que dom João organizou viagens de exploração pelo Atlântico, ao sul e ao Ocidente, para estudar os melhores ventos para chegar ao cabo da Boa Esperança. Só assim os navegantes portugueses teriam descoberto a "volta pelo largo", rota que os fazia passar muito perto do nordeste brasileiro. Será que, nessas viagens, eles teriam visto praias? Não se sabe, é claro, mas no diário de bordo de Vasco da Gama, que em agosto de 1497 fez a volta pelo largo rumo às Índias, está escrito que "achamos muitas aves e, quando veio a noite, elas tiravam contra o sudoeste muito rijas, como aves que iam para terra".

A maior evidência de que dom João sabia ou ao menos suspeitava de terras onde fica o Brasil vem de Cristóvão Colombo. Em sua terceira viagem ao Novo Mundo, iniciada em 1498, Colombo saiu de Cabo Verde, como faziam os portugueses, e seguiu muito mais ao sul do que nas duas anteriores. Em seu diário, escreveu que ia verificar "a intenção del rei dom João de Portugal que dizia que no austro havia terra firme e que por isso teve diferenças com os reis de Castela". Seguindo a pista portuguesa, Colombo de fato topou pela primeira vez com um continente. Continuava achando que tinha chegado ao Cipango. Mas era só a futura Venezuela.

A essa altura, o rei de Portugal já era dom Manuel, o Venturoso. Depois de passar 3 anos adiando uma viagem conjunta de demarcação do meridiano de Tordesilhas, porque era candidato à sucessão do reino de Castela, mudou de planos quando sua esposa espanhola morreu e lhe tirou as chances de unir os reinos. Sabendo da nova viagem de Colombo e imaginado uma disputa sobre os limites de cada reino no Novo Mundo, ele teria enviado uma pequena e secreta expedição para verificar onde, exatamente, passava a linha de Tordesilhas. Essa viagem, comandada por Duarte Pacheco Pereira, teria sido a primeira a visitar o litoral brasileiro, em 1498.

Primeiro português

O Tratado de Tordesilhas tinha alguns problemas de aplicação. Por exemplo, ele não especificava de qual ilha do arquipélago de Cabo Verde as 370 léguas seriam contadas, e não esclarecia qual era o tamanho exato da unidade de medida empregada - cada país calculava a légua de uma maneira, na época. Quando a exploração das novas terras começasse de fato, essas dúvidas certamente causariam polêmica. Logo, era importante conhecer bem a região por onde passava o tal meridiano para não negociar às cegas, quando fosse chegada a hora. Duarte Pacheco tinha vasta experiência em navegação atlântica, determinação de latitudes e longitudes, em viagens de exploração na África e fora consultor técnico das negociações de Tordesilhas, o que fazia dele um homem extremamente preparado para a missão de dom Manuel.

O principal indício da viagem de Duarte Pacheco é um livro que ele escreveu entre 1505 e 1508, chamado Esmeraldo de Situ Orbis, narrando seus serviços prestados ao rei. Nele, Duarte Pacheco diz que dom Manuel lhe encarregara de "descobrir a parte ocidental, passando além a grandeza do Mar Oceano, onde é achada uma tão grande terra firme". Pacheco teria saído da ilha de Santiago, no arquipélago de Cabo Verde, em novembro de 1498 - menos de 6 meses depois de Colombo zarpar do mesmo local. Tomando o rumo sudoeste, seguiu ventos alísios que sopram diretamente para o Brasil. No mesmo mês, avistou terra, dois graus abaixo do Equador. Dali, navegou para oeste, seguindo a corrente das Guianas.

Há poucas dúvidas de que a viagem foi realmente feita e de que ele mesmo a comandou. "O livro era escrito para o rei, sobre missões a serviço do próprio rei. Duarte Pacheco não mentiria", explica o historiador Domingues. Já as dúvidas sobre o real destino de Duarte Pacheco são maiores porque o livro nunca foi impresso, talvez por guardar segredos muito valiosos - mais precisamente uma lista com as coordenadas geográficas de todos os portos descobertos por lusitanos desde o infante dom Henrique. E os manuscritos que restaram, encontrados apenas no século 19, não têm os mapas a que o autor se refere na obra. O texto, no entanto, descreve com minúcias a vegetação e os povos encontrados por Duarte Pacheco em sua missão. No livro A Construção do Brasil, o historiador português Jorge Couto reúne vários indícios de que a tal "grande terra firme" que Pacheco visitou realmente é o Brasil, mais precisamente o trecho compreendido entre o litoral maranhense e o estuário do rio Amazonas.

Outros indícios da viagem de Duarte Pacheco apresentados por Couto são documentos de época e o trabalho de outros historiadores. Um dos mais importantes é o Memorial de la Mejorada, documento castelhano de cerca de 1499, que afirma categoricamente que dom Manuel violou o Tratado de Tordesilhas recém-assinado, enviando expedições que navegaram para oeste do meridiano em áreas da coroa espanhola.

Outro documento importante é o Planisfério de Cantino, do qual tratamos no começo do texto. Ele mostra, em 1502, um golfo chamado de Fremosso, no ponto onde a linha de Tordesilhas passa pelo litoral norte brasileiro. Ora, nem Cabral nem Gaspar de Lemos, que voltou de Porto Seguro para dar notícias do descobrimento em Lisboa, passaram por essa parte do litoral na viagem de 1500. João da Nova, que em 1501 foi às Índias e fez uma escala no cabo de Santo Agostinho, em Pernambuco, tampouco passou por ali. O tal golfo também não apareceria em nenhum outro mapa de origem não portuguesa até 1506. Logo, ele só poderia ter sido identificado em nosso litoral por um navegador português que tenha passado por aqui antes de 1500.

Outros dois estudos do século 20, um português e um inglês, comparam mapas espanhóis e portugueses do século 16 e concluem que o desenho da região do Amazonas dependia da existência de pelo menos "uma expedição lusa por essas paragens, anterior à de Cabral", e que algum português teria subido o rio Amazonas por cerca de 900 km. Para muitos historiadores, Duarte Pacheco foi esse cara. Se foi, por que não foi considerado o descobridor do Brasil? Por um motivo simples: praticamente todas as terras que ele visitou estavam a oeste do meridiano de Tordesilhas e, portanto, pertenciam ao reino de Castela, não ao rei de Portugal.

Embora o tratado obrigasse cada lado a informar ao outro sobre a descoberta de terras na jurisdição do vizinho, nenhum dos dois pretendia dar essa informação de graça ao inimigo. Por isso, inclusive, era importante que a viagem de Duarte Pacheco fosse mantida em segredo. Dom Manuel não sabia, no entanto, que, dentro de muito pouco tempo, alguns súditos de Castela também passariam ali por perto - em mares e terras que pertenciam à sua coroa. E sem guardar segredo. Afinal, como se verá a seguir, os espanhóis viajavam em missão privada, não oficial.

Primeiro espanhol

Aquele ano de 1498 foi intenso. Colombo topou com um continente. Dom Manuel perdeu o direito ao trono de Castela. Duarte Pacheco, ao que tudo indica, chegou ao Brasil. E Vasco da Gama à Índia (apesar de só ter voltado no ano seguinte). Além disso, os reis católicos estavam perdendo sua paciência com seu descobridor genovês. Como combinado antes da viagem, o navegante foi nomeado governador das Índias Ocidentais e explorou as terras descobertas com exclusividade. Só que, mesmo que aquilo fosse o Oriente - como Colombo defendeu até a morte -, ninguém achava especiarias, ouro ou prata ali. Para apressar a exploração do Novo Mundo, os soberanos espanhóis decidiram permitir que empreendedores particulares montassem viagens ao outro lado do Atlântico. Ao saber da notícia, um navegante da cidade de Palos de la Frontera animou-se em organizar sua expedição. Ele havia comandado a caravela Nina na primeira viagem de Colombo, enquanto seu irmão conduzira a Pinta. Juntando seus recursos e alguns empréstimos, montou uma expedição com 4 caravelas e partiu para o Novo Mundo em novembro de 1499. Seu nome era Vicente Yañez Pinzón.

"A primeira menção que se faz a Vicente é de que aos 15 anos percorria a costa catalã com uma caravela, assaltando navios com trigo, para impedir que a cidade passasse fome durante a guerra contra Portugal, entre 1475 e 1479", afirma Julio Izquierdo, historiador da Universidade de Huelva e autor de uma biografia sobre a família Pinzón. Izquierdo explica que Palos, a 50 km de Portugal, era uma espécie de sucursal espanhola da ciência náutica lusitana. "Os portugueses eram, ao mesmo tempo, inimigos e mestres de navegação daquele povo. Na segunda metade do século 15, era a cidade que fornecia marinheiros para o reino de Castela." Os Pinzóns, por sua vez, eram uma das mais renomadas famílias de marinheiros da vila. Não foi por acaso, enfim, que a expedição de Colombo saiu de Palos, com os Pinzóns no comando de 2 das suas 3 naves.

A expedição zarpou de Palos no dia 19 de novembro com uma tripulação muito familiar, com dezenas de amigos e parentes - primos, sobrinhos, tios. O irmão mais velho, Martin Alonso, morrera logo depois de voltar da América, mas o mais novo, Francisco Martin, fora com Colombo na terceira viagem e comandou uma das caravelas na nova missão. As 4 caravelas fizeram uma escala em Cabo Verde e saíram de lá seguindo o vento que soprava para sudoeste - exatamente como teria feito Duarte Pacheco um ano antes.

A pequena esquadra de Pinzón tornou-se a primeira expedição espanhola a cruzar a linha do Equador, o que era um problema, pois, diferentemente dos portugueses, eles ainda não sabiam navegar em alto-mar no Hemisfério Sul. Sem a Estrela Polar, eles simplesmente não tinham referências. Meio perdidos, levados pelo vento e com a ajuda de uma tempestade, eles avistaram terra e desembarcaram no Brasil em 26 de janeiro.

Pinzón e alguns tripulantes gravaram o nome dos reis de Castela em árvores e rochas e, na presença de um escrivão, tomaram posse da terra em nome dos soberanos, batizando-a como Cabo de la Consolación. Registros da época afirmam que o local do desembarque foi o cabo que os portugueses chamariam de Santo Agostinho, que persiste com o mesmo nome, em Pernambuco, embora alguns historiadores defendam que o tal cabo fosse a Ponta de Mucuripe, em Fortaleza. Essa é uma das poucas controvérsias que existem acerca da viagem de Pinzón, pois sua existência e seus passos são muito bem registrados.

A viagem de Duarte Pacheco, como vimos, é um acontecimento não apenas possível mas também muito provável. Ainda assim, não dá para afirmar com certeza que ela aconteceu. Não é o caso da viagem de Pinzón. Tudo o que se passou em sua expedição foi descrito em detalhes por pelo menos dois cronistas, que entrevistaram o comandante e outros tripulantes pessoalmente para publicar os textos um ano depois. Além disso, existe um mapa feito ainda em 1500 pelo navegador espanhol Juan de la Cosa, com detalhes de todo o trecho percorrido por Pinzón.Nele, é possível ler a frase "este cabo foi descoberto por Vicente Yañez", no ponto em que o marinheiro de Palos desembarcou. Historiadores portugueses e espanhóis concordam que ele foi, de fato, o primeiro europeu a chegar ao litoral brasileiro, 3 meses antes de Cabral.

Uma passagem da viagem de Pinzón, no entanto, revela outro enigma sobre as primeiras expedições ao Brasil. Rumando para oeste, o descobridor encontrou o rio Amazonas e passou cerca de dez dias em seu curso, explorando a região. No caminho, as caravelas encontraram um grupo de indígenas. Um grupo armado, dividido em 4 botes, desceu para fazer contato, oferecendo um guizo aos indígenas. Os índios, por sua vez, atraíram os espanhóis com o que os cronistas descrevem como um bastão de ouro. Na tentativa de pegar o "presente", o grupo foi emboscado e seguiu-se uma batalha na qual morreram 8 tripulantes. Como os homens fugiram sem pegar o tal bastão, não se sabe se era mesmo de ouro ou não. O fato é que os índios usaram a isca certa. Como sabiam do interesse desses homens vestidos e barbudos pelo ouro? Será que, antes disso, eles encontraram Duarte Pacheco? Isso jamais saberemos.

A experiência no Amazonas, que Pinzón batizou de Santa María de la Mar Dulce, teve outra consequência para a expedição. Enquanto subia e descia o rio, ela foi ultrapassada pelo grupo de Diego de Lepe. Pois é, Cabral não foi nem o primeiro nem o segundo a chegar, comprovadamente, à costa brasileira. Lepe, primo de Pinzón, saíra da Palos 20 dias depois e empreendeu uma "viagem irmã", chegando ao litoral brasileiro dois meses antes de Cabral.

Ao bater no cabo de Santo Agostinho, Lepe navegou algumas milhas para o sul e voltou, percorrendo em seguida a mesma trajetória de Pinzón. Sua viagem está descrita, ainda que com menos detalhes, pelos mesmos cronistas da época, que também o entrevistaram. Logo, enquanto Pinzón foi o primeiro a percorrer o trecho do cabo de Santo Agostinho ao Amazonas, Lepe é considerado o descobridor do trecho que vai do rio Amazonas até o Essequibo, atual fronteira da Venezuela com a Guiana. Os dois viajantes ainda seguiriam a costa sul-americana até o golfo de Pária, antes de subir ao Caribe e regressar à Europa. Essas regiões, no entanto, já haviam sido navegadas e mapeadas por Colombo e por Juan de la Cosa - aquele mesmo autor do mapa que atesta a viagem de Pinzón. O curioso é que, diferentemente do que aconteceu com Duarte Pacheco, boa parte do litoral que os dois percorreram estava na zona de soberania portuguesa de acordo com o Tratado de Tordesilhas.

Papel de Cabral

Pedro Álvares Cabral saiu de Portugal com destino a Índia em março de 1500. Não há dúvida de que chegou, tomou posse, rezou missa, fincou cruz e deu início ao processo que tornou o Brasil uma colônia portuguesa - e por isso mesmo ficou com a fama de descobridor. A controvérsia sobre sua viagem é se teria chegado por acidente ou intenção, mas até isso não é mais mistério. Sabe-se que, no local em que deveria tomar o rumo leste, os ventos sopravam para esse mesmo lado. Logo, é improvável que tenha vindo para oeste por acidente.

O que se discute é se veio por ordem do rei ou dos conselheiros reais, nobres e comerciantes que discordavam da viagem para a Índia. "Os mercadores privados e a maioria do conselho do rei preferiam a expansão no Atlântico, onde não era necessário entrar em conflito com os muçulmanos e os monopólios reais eram restritos a alguns portos e produtos", explica o historiador Thomaz. "Para o rei, o Brasil constituiria somente uma escala para a Índia, mas para os mercadores privados era a perspectiva de um novo mundo a explorar." Portanto, é bem possível que o fidalgo Cabral tenha resolvido contrariar o rei.

A hipótese poderia explicar o fato de ter sido "esquecido" pelo monarca, que nunca mais o escolheu para qualquer missão em mar ou em terra. Cabral morreu sem glória, sem retrato ou busto de descobridor do Brasil. Os outros descobridores não tiveram melhor sorte. Duarte Pacheco ainda foi tratado com honra por dom Manuel, que lhe deu o comando de uma armada para as Índias e o cargo de governador de São Jorge da Mina - posições muito lucrativas. Com a ascensão de dom João 3º, porém, ele seria perseguido e preso sob a acusação de desvio de ouro. Pinzón faria outra viagem ao Novo Mundo, na qual teria sido o primeiro europeu a encontrar os astecas, no México, mas morreu endividado, em 1514. Da vida de Lepe sabe-se menos ainda. Morreu em Portugal em 1515 e não se tem notícia nem de onde foi enterrado.

Dificilmente saberemos se outras pessoas não teriam chegado ao litoral brasileiro antes desses homens. A história dessas viagens foi preservada em poucos documentos. Quantas outras, de menor importância ou maior segredo, não teriam sido feitas? Quando Martim Afonso de Souza veio para o sul do Brasil, em 1530, encontrou por aqui certo Bacharel de Cananeia, degredado europeu apresentado em diversas crônicas do século 16. Os registros da viagem de Afonso dizem que o Bacharel estava no Brasil havia 30 anos. A maioria dos historiadores defende que ele fora deixado aqui por Gonçalo Coelho, em 1502, mas alguns dizem que isso teria acontecido em 1499, numa suposta expedição de Bartolomeu Dias ao Brasil - de qualquer forma, ele estava justamente onde passava o meridiano de Tordesilhas.

Não há evidências concretas de qualquer outra viagem no Atlântico Sul entre 1488 e 1498. Apesar da falta de provas, provavelmente houve, sim, outras expedições à região. Vasco da Gama percorreu no caminho para a Índia a mesma rota que os velejadores fazem até hoje entre a Europa e o sul da África. Gama teria acertado o melhor caminho, de primeira, por pura sorte? Ou teria feito isso depois de um longo e meticuloso período de viagens de exploração? Domingues arremata: "Essa é uma pergunta que se faz há mais de 100 anos".

A briga pelo desconhecido

Tordesilhas criou a suspeita de que Portugal já sabia da existência do Brasil.


O Tratado de Tordesilhas ficou famoso por ter divido, em 1494, um mundo que não se conhecia entre portugueses e espanhóis. O primeiro acordo a fazer isso, no entanto, foi firmado entre os dois países na cidade lusa de Alcáçovas, em 1479, quando a disputa de ambos pelo Mar Oceano começava a se acirrar.

O acordo dividia o Atlântico horizontalmente, com as ilhas descobertas por Colombo na área de soberania lusitana. Por isso, Castela buscou um novo tratado. Dom João 2º recusou as contrapropostas castelhanas de divisão vertical - com linhas a 100, depois a 270 e a 350 léguas a oeste de Cabo Verde - e ameaçou ir à guerra até garantir uma margem de 370 léguas. Por que o monarca português insistiu tanto em 370 léguas? Para os reis católicos, ele já sabia da existência de terras no Atlântico sul. Até hoje, a suspeita nunca foi confirmada, mas, curiosamente, essa raia garantiu a Portugal uma boa parcela do Novo Mundo. E, se não fosse pela persistência de dom João 2º, nunca teria existido o Brasil como o conhecemos hoje.

O segredo da volta pelo largo

Portugueses foram os primeiros a dominar a navegação em alto-mar




No século 14, Portugal era principal potência marítima do mundo. As caravelas foram uma de suas principais invenções, ao lado de equipamentos e cálculos astronômicos, que os permitiam situar-se no mar mesmo longe da costa. Assim, descobriram que no oceano a menor distância entre dois pontos nem sempre é uma reta. Quando iam para o sul, enfrentavam um constante vento para o norte ao passar do Equador, o que tornava a viagem muito lenta. Então, aprenderam a seguir os ventos que existem na zona tropical atlântica. Para ir ao sul da África, seguiam para oeste até onde o vento fazia a curva para então rumar para leste. A volta pelo largo fazia os portugueses passarem raspando pela costa brasileira. Se dom João organizou viagens para conhecer ventos e correntezas do Atlântico Sul após a viagem de Bartolomeu Dias em 1488 e antes de Tordesilhas, é possível que seus exploradores tenham visto indícios de terra - ou até terra mesmo - antes de 1494.

A ilha imaginária

"Brazil", terra mitológica de origem celta, aparecia em mapas da Idade Média.


Antes da Era dos Descobrimentos, os europeus tinham várias superstições em relação ao mar aberto. Algumas eram assustadoras, como as de monstros marinhos. Outras eram sedutoras, como as que falavam de Hy Brazil, ilha mitológica e paradisíaca situada em algum lugar do Atlântico. Sua origem provável é uma lenda celta, e ela é mais frequentemente localizada a oeste da Irlanda, um dos lugares onde esse povo viveu. Sua posição, no entanto, mudava a cada 7 anos, ou a cada vez que era avistada, dependendo da versão da lenda. Questões geográficas à parte, essa é a ilha imaginária mais desenhada nos mapas europeus dos séculos 14 e 15. O nome da ilha, a propósito, é uma das dezenas de explicações sobre o batismo de nosso país. O termo "brasil" já era usado desde a Idade Média para madeiras de tinta encontradas na Ásia. Quando os portugueses encontraram uma terra com esse tipo de madeira, a existência de um ilha com nome semelhante em tantos mapas teria ajudado o apelido a emplacar.


A Construção do Brasil, Jorge Couto, Forense, 2011