segunda-feira, 12 de agosto de 2013

A verdadeira história sobre a Cleópatra


Lendo descubro um monte de informações. Como foi  bom Ler este livro. Eu indico
Cleópatra - Uma Biografia, Stacy Schiff, Zahar



Novos estudos mostram que Cleópatra não era devassa, não morreu picada por uma cobra, era piadista, ótima estrategista... E estava longe de ser bela

Todos na cidade mediterrânea de Tarso já tinham ouvido os rumores. Fofoca sempre correu rápido. Por isso, uma multidão cada vez maior aglomerava-se nas margens do rio Cidno, em 41 a.C., para assistir ao espetáculo que, afinal, foi um dos mais incríveis da Antiguidade. Em meio a uma explosão de aromas e cores de nuvens de incensos, uma barcaça de popa dourada e velas púrpura, com dezenas de remos de prata, subia calmamente pelas águas turquesa. A batida dos remadores marcava o ritmo para a orquestra de flautas, gaitas e liras no convés. Lindas mulheres vestidas de ninfa trabalhavam no leme e nas cordas. Uma escolta de navios de suprimentos seguia atrás, levando louças de ouro, tapeçarias, joias caríssimas. 

Reclinada sobre um divã e abanada por graciosos meninos, vinha uma mulher de 28 anos, ornada como a Vênus de uma pintura. Era, talvez seja desnecessário dizer, a pessoa mais rica do Mediterrâneo. E também articulada, carismática, fluente em nove línguas, versada em política, diplomacia e governo, estrategista militar. Não exatamente bonita, mas dona de um grande senso de humor e de muito charme. Conquistava quem quisesse. O espetáculo era para seduzir mais um - que, a bem da verdade, estava longe de ser qualquer um. Afinal, Cleópatra, a rainha do Egito, não podia conhecer o general romano Marco Antônio, recém-convertido em um dos homens mais poderosos do mundo, de qualquer maneira. Esse era seu jeito de fazer as coisas: de forma surpreendente, sim, mas muito eficiente. 

Ela teve uma das pós-vidas mais movimentadas da História. "Já virou nome de asteroide, de videogame, marca de cigarro, caça-níqueis, clube de striptease, um esteriótipo... E sinônimo de Elizabeth Taylor", diz (sem citar clássicos, como a peça de Shakespeare), a escritora Stacy Schiff, autora do livro sobre a monarca, Cleópatra: Uma Biografia. 

No futuro, talvez o rosto da egípcia se confunda com o da atriz Angelina Jolie, já que a obra deve virar filme 3D, a ser lançado em 2013. Assim como fez Stacy, o esperado blockbuster promete desmontar vários mitos criados em torno da rainha: os de ser uma libertina e traiçoeira, de ter como principal atributo a arte da sedução e de ter morrido picada por uma cobra, entre tantos outros (embora o da estarrecedora beleza, com Angelina no papel principal, seja mais difícil de ser extinto). O problema de Cleópatra é que sua história foi contada pelos romanos - além de serem seus inimigos, eles acreditavam que apenas os homens podiam ser tão poderosos. 
A rainha

A primeira impressão é a que fica. E Cleópatra fascinou Marco Antônio, que acabara de vencer uma guerra civil ao lado de Otaviano contra os assassinos de Júlio César, tio do aliado. O próprio César havia se rendido aos encantos da rainha sete anos antes. O encontro deles, porém, foi mais inusitado. Cleópatra estava exilada no deserto da Síria. No primeiro ano de seu reinado ao lado do irmão e corregente Ptolomeu XIII, com quem se casara aos 18 anos (ele tinha 10) para garantir o trono na capital, Alexandria, em 51 a.C., o Egito sofria com secas e fome. A população se revoltou contra a monarca quando ela financiou uma campanha militar do general romano Pompeu, amigo de seu pai morto. E ela teve de fugir. Pompeu enfrentou justamente César, que, vitorioso, virou o homem forte de Roma e viajou para o Egito. Segundo o historiador da Universidade da Califórnia Stanley Burstein, autor de The Reign of Cleopatra (sem edição no Brasil), Roma precisava do dinheiro do rico país para custear seus altos gastos de guerra. César instalou-se no palácio de Ptolomeu XIII e, numa tentativa de estabelecer a paz egípcia, pediu aos dois irmãos que o encontrassem. Ptolomeu não aceitou e proibiu o retorno de Cleópatra. Ela, porém, ajudada por comparsas, navegou escondida por dias e, em Alexandria, enfiou-se em uma sacola usada para transportar papiros. Assim, foi "despejada" no quarto do cinquentão César. Não se sabe bem o que aconteceu lá. "Seja o que for, Ptolomeu sentiu-se traído ao ver Cleópatra sentada ao lado do romano", diz Burstein. Furioso, mandou cercar o castelo. 

O sítio durou seis meses e ajudaria a revelar a visão de estrategista da rainha. Como Duane Roller escreveu em Cleopatra: A Biography (inédito em português), sem apoio popular, Ptolomeu XIII foi preso e sua irmã Arsínoe tomou o trono. Chamado a conversar com César, ele se desmanchou em lágrimas, pediu clemência e comoveu o general. Mas logo acionou suas tropas contra o casal. O teatro não surpreendeu Cleópatra. Ao contrário: ela mesma teria sugerido a César fingir piedade e libertar Ptolomeu, prevendo que, ao insistir nos combates, ele se tornaria ainda mais impopular. A chegada de reforços romanos encerraria a Guerra Alexandrina. Ptolomeu XIII morreu tentando fugir e Arsínoe foi presa - depois seria executada a mando da irmã. Cleópatra terminou a temporada grávida de César. Era o primeiro filho do general, futuro ditador de Roma. O trono, claro, sobrou para Cleópatra, agora casada com seu outro irmão, Ptolomeu XIV. Era a forma que César encontrara "para abrandar a raiva romana por ele próprio estar indo para a cama com ela", afirma Stacy. 

Nada poderia ser melhor ao projeto político da faraó do que gerar esse filho, Cesário. "A aliança com César, envolta em sedução e romance, foi, antes de tudo, um ato político bem planejado e de expressivas consequências", afirma Maurício Schneider, doutor em egiptologia pela USP. "A rainha conseguiu vencer a oposição, se firmar no trono e ainda arrastou o romano para seus objetivos imperiais, dando-lhe um filho." (Mais tarde, Ptolomeu XIV seria envenenado e Cesário se tornaria corregente da mãe.) Seu reinado seguiu de vento em popa. Ela governava com pulso firme. "Ministrava a justiça, comandava o Exército e a Marinha, regulava a economia, negociava com poderes estrangeiros e presidia os templos", diz Stacy. Ganhou o apoio dos súditos com a economia próspera e fez crescer também seu patrimônio, herdado da família e construído, sobretudo, em transações comerciais. Por ano, calcula-se, seus rendimentos batiam 15 mil talentos de prata. Um sacerdote, cargo dos mais cobiçados, ganhava 15. Em valores atuais, a fortuna alcançaria 96 bilhões de dólares (quase o valor do orçamento deste ano do governo brasileiro para investimentos). A vida de Cleópatra mudaria quando seu amante foi assassinado pelos senadores romanos, em 44 a.C. Seguiu-se (outra) guerra civil, que terminou anos depois com a vitória de Marco Antônio e Otaviano e a instalação do Segundo Triunvirato. Foi quando a monarca fez sua triunfal apresentação a Antônio - e voltou a ganhar um amante poderoso.
 
A mulher

Diferentemente do que se imagina, a rainha do Egito estava longe de ser uma devassa. Júlio César foi provavelmente seu primeiro homem, e Antônio, o segundo (e último). Não há registro confiável de outros envolvimentos amorosos. Além de Cesário, ela teve mais três filhos, todos reconhecidos por Antônio: Alexandre Hélio e os gêmeos Cleópatra Selene e Ptolomeu Filadelfo. O relacionamento dos dois foi longo (11 anos) e, de forma geral, divertido. O casal adorava promover grandes banquetes. Eles fizeram um "pacto de boa vida" e apelidaram a si mesmos de Inimitáveis Viventes.

Cleópatra Thea Philipator ("deusa que ama o pai", um dos muitos títulos que se atribuiu) estava acostumada ao luxo e à fartura desde que nascera, em 69 a.C., segunda de cinco filhos (leia à pág. 29). O pai, Ptolomeu XII, ou Ptolomeu Auletes, era provavelmente um filho bastardo, da dinastia ptolomaica ou lagide, descendente do general, provador oficial e amigo íntimo de Alexandre, o Grande. A Ptolomeu I coube o controle do Egito após a morte do macedônio. Era o início da Era Helênica. Para garantir a própria legitimidade e provar sua ascendência divina, os ptolomaicos faziam como os deuses: casavam-se entre eles. Cleópatra, portanto, tinha sangue grego. Não se sabe quase nada sobre sua mãe, que desaparece na primeira infância da menina. Há dúvidas, inclusive, sobre quem ela seria. Criada por babás, a garota cresceu entre políticos e pensadores. Viajava muito com o pai e teve ótima educação. Podia recitar de cor a Ilíada e a Odisseia. Sabia aritmética, geometria, música e astrologia. Formou-se em retórica e aprendeu nove línguas, inclusive hebraico, troglodita (uma língua etíope) e egípcio (coisa que nenhum ancestral seu o fez).
 
Não se parecia nada (talvez a peruca) com Liz Taylor. "Não há retratos de Cleópatra, a não ser os bidimensionais das moedas que cunhou", diz Roller. "Elas mostram um nariz e um queixo proeminentes, características de família." Segundo o egiptólogo Júlio Gralha, da Universidade Federal Fluminense, isso pode também ser simbólico: ela queria ser vista parecida com os antepassados, de forma a legitimar seu poder. Para compensar a "feiura", era elegante e carismática. "O contato de sua presença, se se convivia com ela, era irresistível", escreveu o filósofo grego Plutarco. "Ela era astuta e inteligente, e isso era grande parte de seu charme", afirma Gralha. Sem contar o senso de humor. "Capaz de fazer os outros rirem mesmo sem querer", resumiu o orador romano Cícero.

Cleópatra foi careca em certos momentos (possivelmente durante as epidemias de piolho). Adepta das tradições locais, nessas ocasiões usava as perucas com as quais sempre foi retratada, embora um modelo com coque fosse mais provável. Costumava associar sua imagem à da deusa Ísis, dominava tratamentos de beleza (adorava os banhos de leite de jumenta) e maquiagem. Segundo Stacy Schiff, ela ainda era fascinada por venenos - estudava muito o assunto, consultava-se com químicos e médicos, sabia as propriedades de cada tipo, quais matavam mais lentamente...
 
A lenda

É impossível dissociar a história de Cleópatra à de Roma. Na península Itálica, as coisas não iam nada bem entre Otaviano e Marco Antônio. A relação era cordial apenas na aparência - Antônio até se casara com a irmã de Otaviano, Otávia, para tentar fortalecer a aliança. Só que ela degringolou de vez em 37 a.C., quando o general mudou para o Egito para viver com a amante. Lá, continuou a comandar seu exército e a conquistar territórios para Roma. Muitos deles, como a ilha de Chipre, parte do atual Líbano, terras na Líbia e na costa da Turquia modernas, porções de Creta e quase todas as cidades do litoral fenício, Antônio "deu" a Cleópatra - que, assim, dirigiu um território tão grande quanto o do auge da Era Helênica. Otaviano ficou uma fera. Ele tinha outra forte razão para odiar a rainha egípcia: ela era mãe do filho legítimo de César, uma ameaça ao seu poder em Roma. (Além de sobrinho de César, ele fora adotado como herdeiro direto.) Quando Marco Antônio pediu o divórcio de sua irmã, foi a gota d’água.

Otaviano começou então uma campanha contra Cleópatra - e, assim, deu início à série de lendas que surgiriam em torno dela. Na sua versão dos fatos, Antônio era um joguete nas mãos da monarca ardilosa, que pretendia conquistar Roma, como fizera com o general. Em outubro de 32 a.C., declarou guerra à rainha. Ela rumou com o amante para o front militar, na entrada do golfo de Corinto. Os romanos, porém, não aceitaram a presença de uma mulher no acampamento. Muitos desertaram, inclusive homens da confiança de Antônio, o que o deixou abalado. O problema aumentou com a Batalha do Ácio. Cleópatra propôs que, em meio ao confronto, seus navios (carregados com grande parte de seu tesouro) furassem o bloqueio e voltassem para o Egito - seguidos pela frota de Antônio. Quando o vento estava a seu favor, ela cruzou a linha inimiga e o general foi atrás dela, mas seus homens não o seguiram. Provavelmente porque estavam lutando no mar contra a vontade (eles preferiam a terra, Cleópatra insistiu no combate naval) ou porque achavam mais honroso continuar brigando pelo controle de seu país do que seguir uma estrangeira.

O fato é que Marco Antônio foi embora arrasado e seus homens perderam a guerra. "Passou-se quase um ano até que o exército de Otaviano entrasse em Alexandria", diz Stanley Burstein. "No intervalo, Antônio caiu em uma profunda depressão, enquanto Cleópatra eliminava os inimigos suspeitos (de conspirar contra ela e o amante)." A rainha também mandou construir um mausoléu às pressas. E teria iniciado um processo de negociação com Otaviano, oferecendo a abdicação em troca de clemência - o romano até concordava, mas queria a cabeça de Antônio. Nem na tormenta o bom humor do casal se dissipou: continuava a promover bebedeiras. Mas, apropriadamente, a dupla trocou o nome da Sociedade dos Inimitáveis Viventes para Companheiros da Morte. Quando Otaviano finalmente chegou a Alexandria, Cleópatra fugiu para o mausoléu, que já abrigava seu tesouro, e mandou um mensageiro dizer a Antônio que havia se suicidado. Sabia que, assim, ele se mataria também. "É claro que Cleópatra havia cedido ao pedido de Otaviano de sacrificar o amante em troca do Egito", diz Stacy Schiff. "Ela é acusada de tantas traições que é difícil saber como entender essa, talvez a mais humana e menos surpreendente."

Fórmula mortal

Ao saber da notícia, o general enfiou uma espada no peito, mas errou o coração e pediu ajuda dos criados, que o abandonaram. Ele teria descoberto que a monarca não estava morta, arrastou-se até o mausoléu e foi içado para dentro. Desesperada, Cleópatra teria gritado e esmurrado o próprio peito, enquanto Antônio morria em seus braços. Os homens de Otaviano invadiram o local em seguida e a prenderam. Dias depois, ela tomou veneno. A cobra que a teria picado é uma invenção, fruto da "conveniência metafórica" - o animal era símbolo do poder dos faraós. Pesquisa do historiador Christoph Schäfer, da Universidade de Trier, concluiu que ela mesma preparou seu coquetel: "Considerando os sintomas, foi uma mistura de acônito, uma planta tóxica, cicuta e ópio." Ganhou um pomposo cortejo um ano depois. Segundo o historiador romano Cássio Dio, a procissão superou todas as outras em "custos e magnificência". A rainha aparecia em seu leito de morte, em gesso pintado, junto com uma serpente. (Outra pista sobre como prosperou a versão da picada suicida.)

Cleópatra morreu em 30 a.C., mas desde agosto do ano anterior o seu Egito não existia mais. Era só mais uma colônia de Roma. E a campanha contra ela, iniciada em vida por Otaviano, consolidou-se após a sua morte. Os romanos atrelaram toda a história da última faraó à sua sexualidade. Afinal, era melhor pensar que a mulher mais poderosa do mundo no século 1 a.C. conseguiu quase tudo o que quis porque era incrivelmente sedutora - e não porque era incrivelmente inteligente.

Poder e sangue

A dinastia Ptolomaica (305 a.C. a 30 a.C.)

Os Ptolomeus se mantiveram no poder casando-se (e matando-se) entre si, entre 305 a.C. e 31 a.C. Na terra dos governantes que eram também divindades, os "estrangeiros" suaram para fabricar uma ligação com os típicos faraós. Por isso, os gregos ptolomaicos assumiram o casamento entre irmãos, um hábito egípcio. O incesto - desconhecido na Grécia, a ponto de não haver na língua uma palavra para isso - evitava "manchas" no sangue azul ou eventuais disputas pelo poder nas bodas com elites estrangeiras. Dos 15 casamentos centrais da dinastia, dez foram entre irmãos. Nos demais, sempre havia algum parentesco. As uniões, porém, não evitaram crimes violentos em conflitos sucessórios. A tia bisavó de Cleópatra VII era esposa e sobrinha de Ptolomeu VIII. Ele a estuprara quando ela era adolescente. Cleópatra perdeu a irmã mais velha, Berenice, morta pelo pai. Ela mesma foi responsável direta pela morte de dois irmãos.
 

Saiba mais... 

O lugar do feminino no Egito

As características da sociedade em que se destacou Cleópatra VII

Cleópatra VII serve até hoje de inspiração e modelo de mulher forte, determinada e que revolucionou uma época subvertendo o papel até então imposto às mulheres em uma sociedade na qual reinavam o silêncio e a submissão do feminino ao masculino.

Apesar de recorrente, a afirmação de que, no Egito antigo, homens e mulheres possuíam igualdade plena de direitos é falaciosa. Muito embora o espaço e a importância devotados a elas fossem muito maiores que os existentes em outras sociedades da Antiguidade, entre os egípcios existiam, sim, hierarquias de gênero. 

Ao longo da história egípcia, a deusa Isis foi o modelo de mãe e esposa a ser seguido. A lenda conta que o marido de Isis, Osíris (então governante do Egito), foi assassinado por seu irmão Seth e seu corpo foi esquartejado e espalhado por diversos lugares. Determinada, a deusa percorreu o país em busca dos membros a fim de trazer Osíris de volta à vida e gerar um herdeiro, Hórus. A deusa Hathor, por sua vez, simbolizava a natureza dual que os egípcios acreditavam existir nas mulheres: são benevolentes, símbolos de fertilidade e prosperidade, mas têm um lado perigoso e destrutivo, que deve ser apaziguado. Os Ensinamentos de Ptah-Hotep, um conjunto de máximas do século 18 a.C. sobre as relações humanas, orienta os homens a amar as esposas e deixá-las afastadas de posições de poder: "Reprima-a, pois seu olho é um vento de tempestade quando ela encara". 

O contexto em que governou Cleópatra, porém, não é o do esplendor faraônico. Trata-se de um Egito pós-dominação grega, bastante influenciado pela herança cultural da Grécia clássica e helênica. A tradição grega vê os espaços de destaque, especialmente na política, como masculinos por excelência. Nesse sentido, Cleópatra comportaria, na visão dessa sociedade, um desvirtuamento, o qual deveria ser condenado. Os escritos sobre a rainha mostram o olhar masculino sobre os sujeitos femininos, no qual características como agressividade, iniciativa e poder de decisão são atributos reservados aos homens, nunca às mulheres, das quais esperava-se submissão. A imagem de Cleópatra como uma mulher perigosa, cheia de ardis e pouco confiável, certamente foi construída por homens que julgavam o papel ativo de uma mulher na política algo intolerável. Mais interessante ainda é observar como sua imagem produzida pelo imperador romano Otávio Augusto destina-se, na realidade, não a disforizá-la, mas a diminuir seu então inimigo, Marco Antônio. Ao destacar as habilidades sexuais de Cleópatra e como Antônio deixou-se cair a seus pés, Otávio deixa desacreditadas as virtudes políticas de seu oponente, que teria provado ser fraco e não ter capacidade de liderança.

Ao tratar do feminino na Antiguidade, há que se ter cuidado: "A maioria das fontes históricas (do período) foi produzida por homens", diz o historiador Gregory da Silva Balthazar.

O império de Alexandre, o Grande, favorece um novo modelo de mulher, que mistura as tradições macedônicas, gregas clássicas e locais, no caso, egípcias. O papel da mulher no período helenístico já não é mais o da passividade e da submissão. Muitas assumem diversos reinos criados especialmente após a morte de Alexandre. As rainhas possuíam direitos e riquezas superiores aos comuns até então. Um caso interessante é de Arsínoe II, filha de Berenice I e Ptolomeu I, que se tornou rainha ao casar-se com seu irmão Ptolomeu II. Após a morte dele, Arsínoe tornou-se dona de um Exército, o qual comandou em batalhas com o intuito de assegurar a continuidade do poder para seus filhos, tornando-se uma regente bastante poderosa.

Falar sobre as mulheres no Egito antigo não é tarefa fácil. Esbarramos no silêncio das fontes, na sua visão masculina e nos limitadíssimos materiais acerca da vida de mulheres comuns, restringindo a análise, quase sempre, às "grandes", como Cleópatra. Mas o esforço é válido. Dando voz a essas mulheres, podemos inspirar diversas outras a lutar para diminuir, cada vez mais, a fenda que segrega o espaço feminino do masculino na sociedade atual.

* Maria Thereza David João é doutoranda em História Antiga e autora de Tópicos da História Antiga Oriental, entre outros livros e artigos publicados.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Mussolini


Mussolini, o César trapalhão
 
Incapaz de organizar um exército combativo, o ditador italiano Benito Mussolini promoveu intervenções militares desastradas e terminou sua aventura dependurado de ponta-cabeça em um posto de gasolina.

"A guerra é para o homem o que a maternidade é para a mulher. De um ponto de vista doutrinário e filosófico, eu não acredito em paz perpétua.” Foi com frases como essas que Benito Mussolini, Il Duce, ascendeu ao poder na Itália, em 1922. Fanfarrão, posudo, dramático, sempre trajando pomposos uniformes militares, o líder da nação italiana se imaginava um novo César. Mais que isso, imaginava para a Itália um renascimento, que levaria o país de volta aos gloriosos tempos do Império Romano. Para isso, o primeiro passo de Mussolini foi calar as vozes discordantes. Em sete anos, ele extinguiu os outros partidos políticos e tornou o a Itália um país de partido único: o fascista. 

Em 1935, Mussolini promoveu a primeira aventura militar do Exército italiano. O alvo? A paupérrima Etiópia, no nordeste da África. Para lá foram enviados 400 mil soldados italianos, apoiados por tanques e aviões. Contra eles, tribos com rifles obsoletos. A vitória parecia fácil. Mas após seis meses de resistência dos etíopes, o exército italiano, constrangido, recorreu a medidas desesperadas. Utilizou gás mostarda – arma química que provoca lesões nos olhos e na pele e é fatal se inalado. Só então, a capital, Adis Abeba, foi tomada. Mesmo diante do medíocre resultado obtido, Mussolini identificou outra vítima: a pequena Albânia. Em 1939, o país foi invadido. Logo em seguida, Il Duce assinou um tratado de defesa mútua com a Alemanha, chamado de “Pacto de Aço”.

Em 1940, Mussolini tomou para si o controle estratégico das forças armadas, mas não se deu sequer ao trabalho de comunicar previamente aos comandantes das tropas quando resolveu declarar guerra à Inglaterra e à França, em junho de 1940. Imediatamente, ordenou que seus soldados na Líbia – que ocupavam o país desde 1934 – atacassem o Egito, então uma possessão britânica. Em 13 de setembro de 1940, mais de 1 milhão de italianos invadiram o país, que contava com uma guarnição de apenas 36 mil soldados ingleses. Um mês depois, a Itália declarava guerra à Grécia.

Logo as invasões italianas se revelaram um estrepitoso fracasso. No norte da África, em três meses, as muito menores forças britânicas reagiram empurrando os invasores 800 quilômetros para a retaguarda e capturando o estratégico porto de Tobruk, no coração da Líbia italiana.
Na Grécia, as coisas iam de mal a pior. Em menos de dois meses, não só os gregos haviam repelido a invasão como agora ameaçavam a Albânia. Só restou a Mussolini pedir a ajuda de Hitler.

Em fevereiro de 1941, para estabilizar a situação no norte da África, Hitler cria o famoso Afrika Korps, sob o comando do general Erwin Rommel. Em abril, forças alemãs realizam uma operação-relâmpago nos Balcãs. Em menos de um mês, Iugoslávia e Grécia foram totalmente ocupadas. Daí para frente, o exército italiano tornou-se uma sombra, sempre dependente das forças do aliado alemão. Isso quando não lhe causava problemas, como em Stalingrado, onde três divisões italianas foram esmagadas por tanques russos no inverno em 1942. Em 13 de maio de 1943, os italianos se renderam no norte da África. Dois meses depois, as forças aliadas invadem a Sicília, ilha no sul da Itália.

Foi o golpe final para a combalida Itália. Em 25 de julho, o rei Vittorio Emanuelle III demite Benito Mussolini do cargo e aponta o marechal Badoglio como novo líder do governo. O Duce é preso. Em 23 de setembro de 1943, o mesmo Badoglio assinaria a rendição italiana e, um mês depois, surpreende o mundo: declara guerra à Alemanha.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

A última rainha da França



Menina austríaca que virou soberana da França, Maria Antonieta usou o luxo para se impor na corte de Versalhes. Mas, às vésperas da Revolução Francesa, seu mundo estava condenado a desaparecer.

Virar ícone de uma época – representar uma classe, um modo de pensar e de viver – é destino para poucas pessoas. Uma delas, sem dúvida, foi a austríaca Maria Antônia Josefa Johanna von Habsburg-Lothringen, ou simplesmente Maria Antonieta. O problema é que, dependendo de quem a julga, ela é vista de jeitos completamente diferentes. A controvérsia começou ainda na época de sua morte, no fim do século 18. De um lado, era tida como símbolo da arrogância e da insensatez da monarquia francesa. De outro, era admirada como uma mártir, quase uma santa, sacrificada por loucos que tinham se voltado contra a ordem sagrada das coisas.

Durante muito tempo, a discórdia prosseguiu e, no meio da briga, sobrava pouco espaço para quem queria conhecer a Maria Antonieta de carne e osso. Nos últimos anos, porém, historiadores têm se esforçado para trazer à tona uma imagem mais equilibrada da rainha. Os novos estudos mostram que Maria Antonieta não foi uma mulher fútil e ingênua, mas uma mestra em usar o glamour como arma para se firmar numa corte estranha e hostil.
“Maria Antonieta entendeu que ser uma rainha significava essencialmente interpretar um papel. Mais que isso, ela logo descobriu que, por meio de mudanças na moda, ela podia modificar esse papel e até fugir dele”, afirma a pesquisadora americana Caroline Weber, especialista em cultura francesa do século 18 e autora de Queen of Fashion (“Rainha da moda”, inédito em português). “Isso mostra que, até certo ponto, ela tinha uma percepção bem sofisticada e muito moderna do poder da imagem para mudar a realidade.”
Mas toda a astúcia com que Maria Antonieta se firmou na corte de seu marido, o rei Luís XVI, não lhe serviu de nada quando estourou a Revolução Francesa, em 1789, que proclamou a liberdade e a igualdade para todos os cidadãos. Foi uma das maiores reviravoltas da história, considerada o marco que separa a Idade Moderna da Idade Contemporânea. Era o fim do que ficaria conhecido como o “Antigo Regime”, em que os privilégios da nobreza estavam acima de tudo. Era o fim do mundo de Maria Antonieta.

Tudo para trás

A trágica saga de Maria Antonieta começa em Viena, Áustria, numa corte bem menos chique que a da França. Em 2 de novembro de 1755, a imperatriz Maria Teresa deu à luz uma menina pequenina, porém saudável. Era Maria Antônia, seu 15º bebê. O pai, Francisco I, era imperador do Sacro Império Romano-Germânico (que, naquela época, unia frouxamente algumas nações da Europa Central). Mas, apesar da pompa do cargo, não era ele quem mandava. A titular do comando do Império era Maria Teresa, que também era arquiduquesa da Áustria e rainha da Hungria e da Boêmia (hoje parte da Alemanha).
A imperatriz era uma brilhante estrategista política. Detestava perder tempo – aproveitou o parto de Maria Antonieta, por exemplo, para extrair um dente. Mas, apesar de ser viciada em trabalho, era uma boa mãe. Preocupava-se até com a formação musical dos filhos, que tinham contato com alguns dos músicos mais talentosos da Europa. Um deles foi o prodígio Mozart, recebido em Viena com apenas 7 anos. Reza a lenda que, ao andar pelo chão encerado do palácio, ele teria levado um tombo. Maria Antonieta, meses mais velha que ele, teria corrido para ajudá-lo e lhe dado um beijo na bochecha. “Você é bondosa. Quando crescer, quero me casar com você”, teria dito Mozart.
Mas a mãe tinha outros planos para o futuro da menina. Com a morte de Francisco I, em 1765, Maria Teresa buscou se aproximar das outras cortes européias. Usou uma estratégia bastante comum na época: ofereceu suas filhas em casamento. Maria Antonieta se tornou, assim, pretendente de Luís Augusto, neto do rei francês Luís XV. Com a morte prematura dos pais, o rapaz havia se tornado o delfim, herdeiro do trono. A idéia de Maria Teresa era criar uma aliança duradoura com a França, que vivia entrando em conflito com a Áustria e outros membros do Sacro Império.

A corte francesa resistiu bastante à união com a família austríaca, mas, em 1769, veio a proposta oficial de casamento. As diferenças entre os noivos não poderiam ser maiores. Segundo os relatos da época, Maria Antonieta tinha uma impecável pele branca, boca carnuda, cabelos louros e olhos azuis. Caminhava e dançava com elegância. Já Luís Augusto, um ano mais velho que ela, parecia ter crescido demais para a idade. Era desengonçado, absurdamente tímido e considerado um palerma pela corte francesa. Seu único traço aparente de nobreza eram os belos olhos azuis (mas, como ele não levava mesmo jeito para a perfeição, era levemente míope).
O casamento aconteceu em abril de 1770, numa igreja de Viena. E teve toda a cara de arranjo político, já que foi feito por procuração. No altar, Maximiliano, irmão da noiva, fez o papel do delfim. Logo após a cerimônia, um cortejo com 57 carruagens se pôs a caminho da França. Por exigência da nova pátria, ao chegar à fronteira com a França, Maria Antonieta foi obrigada a deixar para trás tudo o que tivesse alguma relação com a Áustria. Não apenas seu enxoval e suas damas de companhia, mas até as roupas que usava. Maria Antonieta despiu-se e recebeu um vestido dourado para continuar a viagem.
Em território francês, a jovem conheceu Luís XV, então com 60 anos. Depois foi a vez do noivo. Luís Augusto, que tivera pouquíssimo contato com mulheres e certamente era virgem, acabou dando apenas um beijo rápido no rosto de Maria Antonieta. Uma nova cerimônia de casamento foi celebrada em Versalhes, o subúrbio nos arredores de Paris onde residia a corte francesa. Sob os olhos atentos da nobreza, o casal se retirou para a cama. Ali aconteceu algo que iria se repetir durante anos: “Nada”, como escreveu o delfim no seu diário, na manhã seguinte.

Versalhes é uma festa

Não foi fácil para a menina de 14 anos se adaptar à nova vida na França. Claro que Maria Antonieta apreciava estar vivendo no palácio de Versalhes, o mais esplendoroso da Europa. Mas as complicadas regras de etiqueta da corte francesa a irritavam um bocado. Para piorar, a privacidade era praticamente inexistente – em tudo o que fazia, ela era observada pelos membros da corte. Além disso, por ter sido criada num ambiente quase puritano, Maria Antonieta não engolia o costume dos nobres franceses de ter amantes “oficiais”. Era o caso do próprio Luís XV, que, viúvo, levava às festas da realeza a ex-prostituta Madame du Barry.
O estranhamento da jovem com a nobreza francesa fez com que ela fosse apelidada, pejorativamente, de l·Autrichienne, “a Austríaca”. “A parte mais antiga da corte considerava Maria Antonieta uma arrivista sem nenhum senso da civilidade, do refinamento e da elegância francesa”, diz Caroline Weber. Por algum tempo, a princesa teve que suportar a má fama. Até que, em 1774, o rei morreu de varíola. Luís Augusto e Maria Antonieta viraram, assim, os soberanos da França. Num piscar de olhos, a rainha usou sua nova posição para criar uma vida de sonho. Dispensou boa parte das antigas damas de companhia, povoou a corte de gente jovem e bonita e ganhou do marido, agora chamado de Luís XVI, o charmoso palácio do Petit Trianon (que antes pertencera a Madame du Barry), em Versalhes. Maria Antonieta organizava corridas de cavalo e se divertia em passeios de carruagem a toda velocidade.
O que mais fascinava a rainha, entretanto, era o agito da noite parisiense (a cidade, então uma das maiores do mundo, tinha 600 mil habitantes). Além de freqüentar óperas e teatros, Maria Antonieta adorava participar de bailes a que as mulheres compareciam mascaradas. Assim, podia se misturar com plebeus sem ser reconhecida. Como Luís XVI adorava acordar cedo, ele não se incomodava em deixá-la ir se divertir sem ele. O rei, aliás, parecia satisfeito em fazer as vontades de sua esposa. Como ela gostava de jogar cartas, Luís XVI instalou um cassino particular em Versalhes. Na estréia da nova atração, a rainha jogou durante 36 horas seguidas. Perdeu uma boa quantia de dinheiro dos cofres da coroa. Nada comparável, claro, ao que ela gastava para aumentar sua coleção de diamantes.

O poder do glamour

Por trás desse mundo de diversão e festas, Maria Antonieta tinha que suportar muitas pressões. Os nobres que haviam sido excluídos do convívio com a rainha não paravam de caluniá-la. Segundo Caroline Weber, o jeito de Maria Antonieta reagir era manipular sua aparência. “Ela usava a moda como um instrumento político, como forma de aumentar ou sustentar sua autoridade em momentos em que ela parecia estar sob risco, como nos sete anos que se passaram antes que ela tivesse um filho”, diz. Por meio de novas roupas, sapatos e penteados, a rainha se impôs, colocando-se acima de qualquer mulher francesa.
“Foi uma atitude inédita para uma rainha”, afirma Caroline. “Antes, as soberanas francesas tinham de projetar uma imagem dócil, vivendo longe dos holofotes. Quem tentava se envolver em política e exibir seu poder por meio de roupas luxuosas eram as amantes dos reis.” A família real francesa sabia da influência que as amantes costumavam ter nos rumos do governo. Por causa disso, havia exigido, durante as negociações com a mãe de Maria Antonieta antes do casamento, que a futura rainha fosse sedutora o bastante para que o rei não encontrasse distração fora de casa. Deu certo. Fosse por causa da beleza de Maria Antonieta ou pela própria falta de apetite sexual, Luís XVI não dava suas escapadas. O problema é que ele tampouco deixava Maria Antonieta meter a colher na política, o que irritava profundamente Maria Teresa, que insistia que a filha tentasse transformar o monarca num fantoche a serviço de seus interesses.

A posição de Maria Antonieta na corte francesa melhorou bastante depois que ela e Luís XVI finalmente tiveram seu primeiro bebê. Em 1778, nasceu Maria Teresa, batizada em homenagem à avó (a imperatriz morreria dois anos depois). O tão esperado delfim, Luís José, veio em 1781. “Com o nascimento de um filho homem, Maria Antonieta assumia a posição tradicionalmente forte de qualquer rainha da França que tivesse produzido um delfim”, conta a historiadora britânica Antonia Fraser, autora do livro Marie Antoinette – The Journey (“Maria Antonieta – a jornada”, inédito no Brasil), que serviu de inspiração para o filme de Sofia Coppola sobre a personagem, que deve estrear por aqui em março.
Depois do nascimento do herdeiro, Maria Antonieta ganhou coragem para desafiar ainda mais os costumes de Versalhes. Quando teve os últimos dois filhos, um menino e uma menina, ela se recusou a dar à luz em público, quebrando a tradição da corte francesa. A essa altura, Maria Antonieta parecia viciada em flertar com a impopularidade. Flertar, aliás, tinha se tornado uma rotina na vida dela desde o fim dos anos 1770, quando conhecera o belíssimo conde sueco Axel Fersen. Se não existem provas de que eles chegaram a ter relações sexuais, há poucas dúvidas de que os dois se amavam: os diários de Fersen, em linguagem cifrada, falam de uma “Josefina”, que certamente era Maria Antonieta.

Tragédia anunciada

Entre 1779 e 1782, Maria Antonieta e o conde Fersen tiveram que se separar. Ele estava na América, lutando ao lado das tropas francesas pela independência dos Estados Unidos. A saudade do amado foi o maior impacto que a guerra teve sobre o cotidiano da rainha. Nessa época, ela transformou parte do Petit Trianon numa réplica das vilas camponesas da França, com casinhas simples, vacas e ovelhas. Para completar o faz-de-conta, Maria Antonieta passou a se fantasiar de pastora.
Longe de Versalhes, os camponeses de verdade e o resto do povo francês viviam um período difícil. A economia cambaleava, com o governo atolado em dívidas. Os gastos com a guerra na América, que acabou em 1783, só pioraram o cenário. Maria Antonieta ganhou, então, um novo apelido: “Madame Déficit”. Os gastos da rainha tinham um impacto mínimo no total das despesas da nação, é verdade. Mas seus hábitos extravagantes se tornaram o principal alvo da revolta popular contra tudo o que havia de errado no governo.

A péssima colheita de 1788 deixou os camponeses famintos e desesperados. Enquanto isso, a classe média (a burguesia) reclamava dos privilégios dos nobres. Debaixo de tantas críticas, Luís XVI tomou a pior decisão de seu reinado. Convocou, para maio de 1789, uma reunião dos chamados Estados Gerais: uma assembléia reunindo representantes do clero, da nobreza e do povo. Em vez de apoiar as tímidas reformas que o rei pretendia fazer, os Estados Gerais logo foram dominados pelos não-nobres. Em 9 de julho, eles conseguiram criar a Assembléia Nacional Constituinte. Enquanto os camponeses de toda a França se revoltavam contra seus senhores e o povo de Paris destruía a Bastilha (prisão-símbolo do autoritarismo do rei), a assembléia abolia o regime feudal e os privilégios da nobreza.
Em outubro, o povo rebelado invadiu Versalhes. Durante duas noites de agonia, Luís XVI e Maria Antonieta ficaram sitiados com os filhos, vários nobres e uns poucos guardas. Aos gritos, a multidão exigiu a presença da rainha no balcão do palácio. Quando ela apareceu, sua figura altiva acalmou um pouco os ânimos. Mas a família real acabou aceitando as reivindicações do povo: aceitou abandonar a “ilha da fantasia” de Versalhes e se estabelecer em Paris.

A Assembléia Nacional exigiu então que o rei governasse com uma câmara de representantes do povo. Mas Luís XVI não aceitava dividir o poder. Em junho de 1791, ele e a rainha tentaram fugir da França, mas foram pegos e levados de volta a Paris. Sem alternativa, passaram a esperar ajuda da nobreza de outros países. Maria Antonieta manobrou nos bastidores para que seus parentes atacassem a França. A Assembléia Nacional acabou facilitando: como queria expandir a revolução pela Europa, ela deu apoio para que Luís XVI declarasse guerra contra a Áustria. Auxiliadas pela Prússia (hoje parte da Alemanha), as forças inimigas invadiram o país e ameaçaram marchar sobre Paris se a família real sofresse algo. O fato foi visto pelo povo como sinal de que Luís XVI era um traidor.
Em 20 de setembro de 1792, as forças francesas detiveram os invasores. No dia seguinte, a república foi proclamada e a família real foi presa. O ódio contra a nobreza atingiu o ápice. Uma das melhores amigas da rainha, a princesa de Lamballe, foi linchada. Enfiada na ponta de um pedaço de pau, sua cabeça foi levada até a janela da cela de Maria Antonieta, que entrou em pânico e desmaiou.

Em janeiro de 1793, Luís XVI foi guilhotinado. Isolada na prisão, Maria Antonieta passou a vestir apenas preto. Foi levada a julgamento, acusada até de incesto com o filho mais novo. O processo não trouxe qualquer evidência concreta contra Maria Antonieta. Quando o júri exigiu uma explicação sobre o incesto, a ex-rainha gritou: “Se não respondi, foi porque a natureza se recusa a responder tal acusação feita a uma mãe. Apelo às mães aqui presentes!” Foi o único momento em que o público protestou em sua defesa. Condenada à morte, Maria Antonieta viveu um papel que não combinava com ela, o de vítima. Em 16 de outubro de 1793, foi guilhotinada em praça pública.


Campanha frustrada de Napoleão em direção à Rússia

Há 201 anos, Napoleão foi protagonista de um dos maiores desastres da história militar. Viu seu exército ser dizimado na Rússia e perdeu a fama de invencível. A campanha foi o primeiro passo rumo ao fracasso da França napoleônica.

Era um belo dia de sol quando os soldados da França cruzaram o rio Neman, na atual fronteira da Polônia com a Lituânia, aos gritos de "Vive l'Empereur!", na confiança de serem o maior e mais temido exército que o mundo havia visto. Estavam ali para dar uma surra, não para guerrear - o inimigo só tinha um terço de suas forças e estava dividido. E, o mais importante, não tinha Napoleão como líder. Eram 690 mil soldados de várias nacionalidades, dos quais só 300 mil eram franceses. Os demais eram poloneses, austríacos, italianos, prussianos e até 2 mil portugueses, recrutados entre simpatizantes do imperador. Como era comum na época, seguia com eles um cortejo de comerciantes, prostitutas, médicos e até esposas e filhos dos militares. Nem soldados, nem civis, nem Napoleão poderiam imaginar àquela hora, mas apenas um em cada sete deles voltaria vivo daquela campanha.


A Rússia não é para principiantes e isso não era segredo para Napoleão e seus soldados. Pouco mais de um século antes, em 1709, o rei Carlos 12, da Suécia, havia perdido seu exército na Rússia de frio e fome. Por isso, o exército francês invadiu a Rússia no auge do verão, em 24 de junho de 1812. E o verão foi seu primeiro inimigo. As temperaturas frequentemente superam os 30 ºC, enquanto as noites duram apenas 3 horas - foi "aproveitando" esse sol todo que Napoleão fez seus soldados marcharem 112 km nos dois primeiros dias da campanha. A essa velocidade, as carroças de suprimento ficaram para trás. Desidratada pela caminhada e sem alimentos e água, a tropa viu-se forçada a beber dos riachos pantanosos da região, pegando diarreia. As primeiras vítimas tombaram ao lado das fontes de água - e os soldados que vinham atrás também ficaram doentes.

A pressa era justificada pela estratégia. "Napoleão não foi à Rússia para conquistar", diz o historiador César Machado Domingues, editor da Revista Brasileira de História Militar. Ele queria simplesmente aniquilar o exército russo e conseguir uma aliança forçada com o czar Alexandre 1º. O primeiro alvo era a cidade de Vilna, atual capital da Lituânia, onde estava o comando das tropas russas, inclusive o czar. Napoleão entrou na cidade em 28 de junho, mas o comando russo havia se mudado. Não só isso. Também haviam esvaziado armazéns e paióis de pólvora e queimado plantações nos arredores.

Os franceses esperavam fazer o mesmo que em suas guerras anteriores: tomar alimentos das cidades e fazendas pelo caminho. O que sobrava da destruição russa só era aproveitado pelos soldados da frente da coluna - quem vinha atrás passava fome. Um comércio clandestino e gangues de ladrões passaram a agir. Os cavalos, que morriam às centenas, se tornaram o prato principal.

A campanha prosseguiu assim - os russos regredindo e queimando tudo, os franceses sangrando lentamente de doenças, fome, sede, ataques de guerrilha e deserção massiva. "No caminho para Moscou, ainda no verão, os franceses perdiam em média 6 mil soldados por dia", escreveu o médico e historiador Achilles Rose (1839-1916) em seu livro A Campanha de Napoleão na Rússia, Anno 1812.

Após mais uma conquista estéril na cidade de Smolensk, em 18 de agosto, Napoleão decidiu rumar para Moscou. Mas isso os russos não aceitariam e, enfim, Napoleão teve sua batalha. A mais sangrenta de todas as guerras napoleônicas, a Batalha de Borodino, em 7 de setembro - dos 250 mil participantes, 80 mil morreram. Os russos recuaram mais uma vez, mas não foram aniquilados. Em 14 de setembro, Moscou pertencia a Napoleão. "Napoleão deve ter imaginado que havia vencido", diz César Domingues. Ele sentou-se no trono do Kremlin e esperou a rendição do czar. No mesmo dia, começou um incêndio, que os russos jamais admitiram ter causado, que destruiu 75% da cidade em 4 dias.

O tempo ia esfriando, o Exército russo, se recompondo, e o czar não ofereceu paz. Em 18 de outubro, quando os franceses iniciaram a retirada, a temperatura estava por volta de 0 ºC. O plano era voltar pelo sul, mas os russos cortaram o caminho e os militares se viram forçados a voltar por onde vieram, começando pelo campo de Borodino, crivado de homens e cavalos em decomposição da batalha de um mês e meio antes.

Se algo havia sobrado da destruição causada pelos russos, já havia sido consumido pelos franceses na ida. Diante de um frio que chegaria a -40 ºC, ninguém tinha roupas de frio, exceto as roubadas de Moscou - inclusive chapéus, sapatos, mantos e echarpes femininas. Os cavalos não tinham ferraduras adaptadas ao gelo, como as dos russos - escorregavam e quebravam as patas ou simplesmente não conseguiam puxar as cargas.

A tropa se converteu em um bando de desesperados. Cavalos passaram a ser atacados e a carne era comida crua. Em seu livro de memórias, o sargento Adrien Bourgogne relata que um carro-ambulância teve seus cavalos devorados à noite pela tropa. De manhã, os feridos foram largados no caminho. Os soldados também tiravam nacos de carne de animais ainda vivos - amortecidos pelo frio, eles não reagiam. Bourgogne conta que um bando de soldados havia se fechado em um celeiro para evitar o frio. Eles se acumularam na porta para evitar que mais gente entupisse o lugar. Durante a noite, o celeiro pegou fogo. Quando o incêndio acabou, alguns soldados tomaram coragem de avançar para os corpos dos colegas, providencialmente "assados". O soldado alemão Jakob Walters (1788-1864) escreveu que viu um soldado que se aliviava de diarreia à beira da estrada ter suas calças roubadas - a vítima morreu de frio horas depois.

Os franceses fugiam em desespero, mas os russos não haviam se esquecido deles. Em 26 de novembro, as tropas napoleônicas tiveram de atravessar o rio Berezina (na atual Bielorrússia). Os russos descobriram sua posição e atacaram no dia 29, com 60 mil homens, contra 40 mil soldados divididos entre as duas margens. Os franceses conseguiram escapar com seu imperador, destruindo as pontes improvisadas que haviam feito - mas ainda havia muitos deles do outro lado. Entre 25 mil e 45 mil civis e militares morreram ali - 10 mil deles empurrados pelos cossacos para dentro do rio congelado.

Em 14 de dezembro, o esfarrapado exército de Napoleão chegou à Polônia. Sua tropa principal tinha 22 mil soldados, dos 690 mil que entraram na Rússia. O total de sobreviventes é cerca de 100 mil, contando as outras colunas do exército. Pessoas, armas e cavalos podiam ser substituídos, mas o dano irrecuperável foi à reputação de invencível de Napoleão, que acabou deposto e exilado na ilha de Elba (Itália) em 1814.

Não foi apenas Napoleão que não aprendeu com seus antecessores. Em 22 de junho de 1941, Hitler invadiu a União Soviética, também esperando uma campanha fulminante que acabasse antes do inverno. Os nazistas estavam às portas de Moscou em dezembro, mas então veio o inverno, matando 150 mil alemães em poucos dias. Em homenagem aos serviços prestados, os russos deram uma promoção a seu inverno. Lá ele é conhecido como General Moroz - o temido General Inverno.


Bárbaros pelo czar


Os cossacos não costumam entrar na conta do efetivo do Exército russo, mas como adicionais (costuma-se afirmar algo como "100 mil soldados e 20 mil cossacos"). Na verdade, eles nem são exatamente russos. Cossacos são sociedades independentes, democráticas e militaristas, originalmente de povos eslavos, que depois passaram a aceitar aventureiros de qualquer país - particularmente quem falasse línguas, soubesse fazer contas ou simplesmente fosse alfabetizado, talentos raros entre os nascidos entre eles. Os cossacos não eram súditos, mas aliados do czar - e se voltaram contra os russos em algumas ocasiões, como a Revolta de Pugachev, de 1774. Suas tropas tinham sua própria hierarquia e generais. Mas elas eram um tanto indisciplinadas, por isso os russos preferiam usá-los como forma de bagunçar e aterrorizar as linhas inimigas, e não como força de choque ou cavalaria regular. Os cossacos foram integrados à sociedade soviética à força por Josef Stalin, na década de 30, mas os descendentes ainda se orgulham do passado independente e aventureiro.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

A verdadeira história sobre o descobrimento do Brasil


Cabral tomou posse, mas chegou depois. Veja como a busca de um caminho para as Índias trouxe outros navegantes portugueses e espanhóis ao Brasil antes do descobridor oficial

Lisboa, 1502. Com a descoberta de um caminho marítimo para as Índias e de uma terra com proporções continentais do outro lado do Atlântico, a capital do reino de Portugal tornara-se um ponto de convergência para espiões de toda a Europa. A cada viagem, os navegantes portugueses entregavam suas anotações a cartógrafos do rei, que consolidavam toda a informação sobre a forma e os caminhos do mundo em mapas cada vez mais completos. Eles eram guardados a 7 chaves em locais como a Casa da Mina e das Índias. A pena de morte para cartógrafos que contrabandeassem mapas não impediu, porém, que o italiano Alberto Cantino conseguisse uma cópia do mapa mais completo que havia do mundo daquela época, uma "carta náutica para as ilhas recentemente encontradas na região das Índias". O espião contratou um personagem misterioso, que teria levado 10 meses para reproduzi-lo, e remeteu a obra ao duque de Ferrara, na Itália. A cópia entrou para a história como o Planisfério de Cantino e serviu de referência para outros mapas europeus do século 16. Com 218 x 102 cm, revelava um mundo nunca visto: grandes partes da Ásia e as terras descobertas por Colombo e Cabral na América. Misteriosamente, a carta também mostra detalhes do litoral norte brasileiro, que até 1502 não fora visitado oficialmente. O que sugere que o mapa foi elaborado com a ajuda de outros navegantes, que teriam chegado ao Brasil antes de Cabral.

Para entender como isso aconteceu, precisamos voltar um pouco mais no tempo, para o início do século 15. Nessa época, os europeus só sabiam navegar em algumas regiões, como o mar Mediterrâneo e as bordas do continente. Além daí, reinava o medo. "Havia desde sempre uma crença em monstros marinhos. Eles também acreditavam que havia zonas do mar em que não se pode navegar porque a água fervia ou porque os navios encalhavam", conta Francisco Domingues, historiador da Universidade de Lisboa, especialista em náutica da Era dos Descobrimentos. Até os mapas tinham coisas imaginárias, como uma misteriosa "Hy Brazil" (veja na página 35). Também havia, é claro, o medo do fim do mundo, que poucos julgavam ser redondo. Muitos navegantes que se aventuravam pelo Mar Oceano, como os portugueses chamavam o Atlântico, iam e não voltavam. Não por acaso, um dos maiores obstáculos à navegação daquela época era chamado de cabo do Medo, ou Bojador, na costa do Saara Ocidental.

Esse cabo e o medo da navegação atlântica começaram a ser vencidos na década de 1430, quando o infante dom Henrique, filho do rei dom João I, passou a incentivar o desenvolvimento da ciência náutica. Sob sua influência, os portugueses desenvolveram uma série de técnicas e de equipamentos que lhes permitiria realizar algumas façanhas. Um dos mais importantes foi a caravela, embarcação que, com duas ou três velas triangulares, podia navegar "à bolina", ziguezagueando "contra o vento". Em 1434, os homens de dom Henrique já haviam superado o cabo do Medo. Com as caravelas, eles foram - e voltaram - muito mais ao sul na costa africana. Na Guiné, nome com que eles chamam toda a costa noroeste da África, fundaram a feitoria de São Jorge da Mina, onde negociavam ouro, escravos, marfim e pimenta-malagueta. No século 15, essa foi a principal fonte de riqueza de Portugal.

Outra grande contribuição dos portugueses foi a navegação astronômica. Graças a um instrumento chamado quadrante - e mais tarde ao astrolábio - foram os primeiros a navegar longe da costa e descobriram que era possível voltar da Guiné mais depressa se contornassem os ventos contrários que sopravam na costa africana. Metendo-se em alto-mar, encontraram e povoaram os arquipélagos de Açores e Cabo Verde. Ninguém tinha tecnologia parecida. Era como se os portugueses fossem capazes de ir à Lua enquanto navegantes de outros países só conseguissem voar do Rio a São Paulo em teco-tecos. Os únicos marinheiros capazes de missões parecidas eram os vizinhos espanhóis.

Novas técnicas de navegação e as riquezas da África já eram suficientes para atrair a cobiça de outros países. E a capacidade marítima de Portugal ganharia ainda mais importância por causa da queda de Constantinopla (1453) e a limitação do comércio com a Ásia. Lisboa tornou-se destino de cartógrafos, astrônomos e navegadores de toda a Europa, interessados em participar da corrida para as Índias - entre eles Cristóvão Colombo, que viveu ali nas décadas de 1470 e 80. Todos os "descobrimentos do Brasil", até o oficial, foram um efeito colateral da busca pela rota para o Oriente.

As Índias ficaram mais próximas dos portugueses em 1488, quando Bartolomeu Dias dobrou o cabo das Tormentas - e o transformou no da Boa Esperança -, no extremo sul da África. A chegada de Colombo à América, 4 anos depois, deu início a uma crise diplomática entre Portugal e Espanha, a patrocinadora de Colombo. A rusga acabaria trazendo ao Brasil navios das duas bandeiras ainda no século 15.

Briga de Tordesilhas

Quando Colombo chegou às ilhas do Caribe, disse ter certeza de estar no Oriente, a um pulo do Cipango (Japão). O problema é que as ilhas, fossem orientais ou não, pertenciam a Portugal, segundo um tratado assinado com o reino de Castela em 1479. A descoberta lançou os dois países numa espécie de guerra fria, com armadas prontas para o combate. Durante dois tensos anos de negociação, dom João 2º, o rei lusitano, insistiu em garantir a soberania sobre o Atlântico Sul, com uma margem de 370 léguas a oeste de Cabo Verde. Seu esforço diplomático garantiu o acerto de Tordesilhas, em 1494, que deixou os castelhanos com as tais Índias Ocidentais e uma grande suspeita: dom João sabia da existência de alguma terra no Atlântico Ocidental, para defender tão obstinadamente seu direito à região onde hoje sabemos que está o Brasil?




Não há nenhuma evidência de que dom João 2º conhecia terras por aqui. Existem, porém, indícios de que Portugal estava explorando essas bandas desde o regresso de Bartolomeu Dias, em 1489. Um deles são registros de mantimentos, como uma encomenda de mil quintais de biscoitos (pão assado duas vezes, usado como alimento nas viagens), suficiente para abastecer 2 ou 3 caravelas por 2 anos. Outro indício vem de espiões castelhanos, que avistaram a saída de 4 caravelas da ilha da Madeira, em 1493, navegando para Oeste.

Apesar da falta de provas, vários historiadores acreditam que dom João organizou viagens de exploração pelo Atlântico, ao sul e ao Ocidente, para estudar os melhores ventos para chegar ao cabo da Boa Esperança. Só assim os navegantes portugueses teriam descoberto a "volta pelo largo", rota que os fazia passar muito perto do nordeste brasileiro. Será que, nessas viagens, eles teriam visto praias? Não se sabe, é claro, mas no diário de bordo de Vasco da Gama, que em agosto de 1497 fez a volta pelo largo rumo às Índias, está escrito que "achamos muitas aves e, quando veio a noite, elas tiravam contra o sudoeste muito rijas, como aves que iam para terra".

A maior evidência de que dom João sabia ou ao menos suspeitava de terras onde fica o Brasil vem de Cristóvão Colombo. Em sua terceira viagem ao Novo Mundo, iniciada em 1498, Colombo saiu de Cabo Verde, como faziam os portugueses, e seguiu muito mais ao sul do que nas duas anteriores. Em seu diário, escreveu que ia verificar "a intenção del rei dom João de Portugal que dizia que no austro havia terra firme e que por isso teve diferenças com os reis de Castela". Seguindo a pista portuguesa, Colombo de fato topou pela primeira vez com um continente. Continuava achando que tinha chegado ao Cipango. Mas era só a futura Venezuela.

A essa altura, o rei de Portugal já era dom Manuel, o Venturoso. Depois de passar 3 anos adiando uma viagem conjunta de demarcação do meridiano de Tordesilhas, porque era candidato à sucessão do reino de Castela, mudou de planos quando sua esposa espanhola morreu e lhe tirou as chances de unir os reinos. Sabendo da nova viagem de Colombo e imaginado uma disputa sobre os limites de cada reino no Novo Mundo, ele teria enviado uma pequena e secreta expedição para verificar onde, exatamente, passava a linha de Tordesilhas. Essa viagem, comandada por Duarte Pacheco Pereira, teria sido a primeira a visitar o litoral brasileiro, em 1498.

Primeiro português

O Tratado de Tordesilhas tinha alguns problemas de aplicação. Por exemplo, ele não especificava de qual ilha do arquipélago de Cabo Verde as 370 léguas seriam contadas, e não esclarecia qual era o tamanho exato da unidade de medida empregada - cada país calculava a légua de uma maneira, na época. Quando a exploração das novas terras começasse de fato, essas dúvidas certamente causariam polêmica. Logo, era importante conhecer bem a região por onde passava o tal meridiano para não negociar às cegas, quando fosse chegada a hora. Duarte Pacheco tinha vasta experiência em navegação atlântica, determinação de latitudes e longitudes, em viagens de exploração na África e fora consultor técnico das negociações de Tordesilhas, o que fazia dele um homem extremamente preparado para a missão de dom Manuel.

O principal indício da viagem de Duarte Pacheco é um livro que ele escreveu entre 1505 e 1508, chamado Esmeraldo de Situ Orbis, narrando seus serviços prestados ao rei. Nele, Duarte Pacheco diz que dom Manuel lhe encarregara de "descobrir a parte ocidental, passando além a grandeza do Mar Oceano, onde é achada uma tão grande terra firme". Pacheco teria saído da ilha de Santiago, no arquipélago de Cabo Verde, em novembro de 1498 - menos de 6 meses depois de Colombo zarpar do mesmo local. Tomando o rumo sudoeste, seguiu ventos alísios que sopram diretamente para o Brasil. No mesmo mês, avistou terra, dois graus abaixo do Equador. Dali, navegou para oeste, seguindo a corrente das Guianas.

Há poucas dúvidas de que a viagem foi realmente feita e de que ele mesmo a comandou. "O livro era escrito para o rei, sobre missões a serviço do próprio rei. Duarte Pacheco não mentiria", explica o historiador Domingues. Já as dúvidas sobre o real destino de Duarte Pacheco são maiores porque o livro nunca foi impresso, talvez por guardar segredos muito valiosos - mais precisamente uma lista com as coordenadas geográficas de todos os portos descobertos por lusitanos desde o infante dom Henrique. E os manuscritos que restaram, encontrados apenas no século 19, não têm os mapas a que o autor se refere na obra. O texto, no entanto, descreve com minúcias a vegetação e os povos encontrados por Duarte Pacheco em sua missão. No livro A Construção do Brasil, o historiador português Jorge Couto reúne vários indícios de que a tal "grande terra firme" que Pacheco visitou realmente é o Brasil, mais precisamente o trecho compreendido entre o litoral maranhense e o estuário do rio Amazonas.

Outros indícios da viagem de Duarte Pacheco apresentados por Couto são documentos de época e o trabalho de outros historiadores. Um dos mais importantes é o Memorial de la Mejorada, documento castelhano de cerca de 1499, que afirma categoricamente que dom Manuel violou o Tratado de Tordesilhas recém-assinado, enviando expedições que navegaram para oeste do meridiano em áreas da coroa espanhola.

Outro documento importante é o Planisfério de Cantino, do qual tratamos no começo do texto. Ele mostra, em 1502, um golfo chamado de Fremosso, no ponto onde a linha de Tordesilhas passa pelo litoral norte brasileiro. Ora, nem Cabral nem Gaspar de Lemos, que voltou de Porto Seguro para dar notícias do descobrimento em Lisboa, passaram por essa parte do litoral na viagem de 1500. João da Nova, que em 1501 foi às Índias e fez uma escala no cabo de Santo Agostinho, em Pernambuco, tampouco passou por ali. O tal golfo também não apareceria em nenhum outro mapa de origem não portuguesa até 1506. Logo, ele só poderia ter sido identificado em nosso litoral por um navegador português que tenha passado por aqui antes de 1500.

Outros dois estudos do século 20, um português e um inglês, comparam mapas espanhóis e portugueses do século 16 e concluem que o desenho da região do Amazonas dependia da existência de pelo menos "uma expedição lusa por essas paragens, anterior à de Cabral", e que algum português teria subido o rio Amazonas por cerca de 900 km. Para muitos historiadores, Duarte Pacheco foi esse cara. Se foi, por que não foi considerado o descobridor do Brasil? Por um motivo simples: praticamente todas as terras que ele visitou estavam a oeste do meridiano de Tordesilhas e, portanto, pertenciam ao reino de Castela, não ao rei de Portugal.

Embora o tratado obrigasse cada lado a informar ao outro sobre a descoberta de terras na jurisdição do vizinho, nenhum dos dois pretendia dar essa informação de graça ao inimigo. Por isso, inclusive, era importante que a viagem de Duarte Pacheco fosse mantida em segredo. Dom Manuel não sabia, no entanto, que, dentro de muito pouco tempo, alguns súditos de Castela também passariam ali por perto - em mares e terras que pertenciam à sua coroa. E sem guardar segredo. Afinal, como se verá a seguir, os espanhóis viajavam em missão privada, não oficial.

Primeiro espanhol

Aquele ano de 1498 foi intenso. Colombo topou com um continente. Dom Manuel perdeu o direito ao trono de Castela. Duarte Pacheco, ao que tudo indica, chegou ao Brasil. E Vasco da Gama à Índia (apesar de só ter voltado no ano seguinte). Além disso, os reis católicos estavam perdendo sua paciência com seu descobridor genovês. Como combinado antes da viagem, o navegante foi nomeado governador das Índias Ocidentais e explorou as terras descobertas com exclusividade. Só que, mesmo que aquilo fosse o Oriente - como Colombo defendeu até a morte -, ninguém achava especiarias, ouro ou prata ali. Para apressar a exploração do Novo Mundo, os soberanos espanhóis decidiram permitir que empreendedores particulares montassem viagens ao outro lado do Atlântico. Ao saber da notícia, um navegante da cidade de Palos de la Frontera animou-se em organizar sua expedição. Ele havia comandado a caravela Nina na primeira viagem de Colombo, enquanto seu irmão conduzira a Pinta. Juntando seus recursos e alguns empréstimos, montou uma expedição com 4 caravelas e partiu para o Novo Mundo em novembro de 1499. Seu nome era Vicente Yañez Pinzón.

"A primeira menção que se faz a Vicente é de que aos 15 anos percorria a costa catalã com uma caravela, assaltando navios com trigo, para impedir que a cidade passasse fome durante a guerra contra Portugal, entre 1475 e 1479", afirma Julio Izquierdo, historiador da Universidade de Huelva e autor de uma biografia sobre a família Pinzón. Izquierdo explica que Palos, a 50 km de Portugal, era uma espécie de sucursal espanhola da ciência náutica lusitana. "Os portugueses eram, ao mesmo tempo, inimigos e mestres de navegação daquele povo. Na segunda metade do século 15, era a cidade que fornecia marinheiros para o reino de Castela." Os Pinzóns, por sua vez, eram uma das mais renomadas famílias de marinheiros da vila. Não foi por acaso, enfim, que a expedição de Colombo saiu de Palos, com os Pinzóns no comando de 2 das suas 3 naves.

A expedição zarpou de Palos no dia 19 de novembro com uma tripulação muito familiar, com dezenas de amigos e parentes - primos, sobrinhos, tios. O irmão mais velho, Martin Alonso, morrera logo depois de voltar da América, mas o mais novo, Francisco Martin, fora com Colombo na terceira viagem e comandou uma das caravelas na nova missão. As 4 caravelas fizeram uma escala em Cabo Verde e saíram de lá seguindo o vento que soprava para sudoeste - exatamente como teria feito Duarte Pacheco um ano antes.

A pequena esquadra de Pinzón tornou-se a primeira expedição espanhola a cruzar a linha do Equador, o que era um problema, pois, diferentemente dos portugueses, eles ainda não sabiam navegar em alto-mar no Hemisfério Sul. Sem a Estrela Polar, eles simplesmente não tinham referências. Meio perdidos, levados pelo vento e com a ajuda de uma tempestade, eles avistaram terra e desembarcaram no Brasil em 26 de janeiro.

Pinzón e alguns tripulantes gravaram o nome dos reis de Castela em árvores e rochas e, na presença de um escrivão, tomaram posse da terra em nome dos soberanos, batizando-a como Cabo de la Consolación. Registros da época afirmam que o local do desembarque foi o cabo que os portugueses chamariam de Santo Agostinho, que persiste com o mesmo nome, em Pernambuco, embora alguns historiadores defendam que o tal cabo fosse a Ponta de Mucuripe, em Fortaleza. Essa é uma das poucas controvérsias que existem acerca da viagem de Pinzón, pois sua existência e seus passos são muito bem registrados.

A viagem de Duarte Pacheco, como vimos, é um acontecimento não apenas possível mas também muito provável. Ainda assim, não dá para afirmar com certeza que ela aconteceu. Não é o caso da viagem de Pinzón. Tudo o que se passou em sua expedição foi descrito em detalhes por pelo menos dois cronistas, que entrevistaram o comandante e outros tripulantes pessoalmente para publicar os textos um ano depois. Além disso, existe um mapa feito ainda em 1500 pelo navegador espanhol Juan de la Cosa, com detalhes de todo o trecho percorrido por Pinzón.Nele, é possível ler a frase "este cabo foi descoberto por Vicente Yañez", no ponto em que o marinheiro de Palos desembarcou. Historiadores portugueses e espanhóis concordam que ele foi, de fato, o primeiro europeu a chegar ao litoral brasileiro, 3 meses antes de Cabral.

Uma passagem da viagem de Pinzón, no entanto, revela outro enigma sobre as primeiras expedições ao Brasil. Rumando para oeste, o descobridor encontrou o rio Amazonas e passou cerca de dez dias em seu curso, explorando a região. No caminho, as caravelas encontraram um grupo de indígenas. Um grupo armado, dividido em 4 botes, desceu para fazer contato, oferecendo um guizo aos indígenas. Os índios, por sua vez, atraíram os espanhóis com o que os cronistas descrevem como um bastão de ouro. Na tentativa de pegar o "presente", o grupo foi emboscado e seguiu-se uma batalha na qual morreram 8 tripulantes. Como os homens fugiram sem pegar o tal bastão, não se sabe se era mesmo de ouro ou não. O fato é que os índios usaram a isca certa. Como sabiam do interesse desses homens vestidos e barbudos pelo ouro? Será que, antes disso, eles encontraram Duarte Pacheco? Isso jamais saberemos.

A experiência no Amazonas, que Pinzón batizou de Santa María de la Mar Dulce, teve outra consequência para a expedição. Enquanto subia e descia o rio, ela foi ultrapassada pelo grupo de Diego de Lepe. Pois é, Cabral não foi nem o primeiro nem o segundo a chegar, comprovadamente, à costa brasileira. Lepe, primo de Pinzón, saíra da Palos 20 dias depois e empreendeu uma "viagem irmã", chegando ao litoral brasileiro dois meses antes de Cabral.

Ao bater no cabo de Santo Agostinho, Lepe navegou algumas milhas para o sul e voltou, percorrendo em seguida a mesma trajetória de Pinzón. Sua viagem está descrita, ainda que com menos detalhes, pelos mesmos cronistas da época, que também o entrevistaram. Logo, enquanto Pinzón foi o primeiro a percorrer o trecho do cabo de Santo Agostinho ao Amazonas, Lepe é considerado o descobridor do trecho que vai do rio Amazonas até o Essequibo, atual fronteira da Venezuela com a Guiana. Os dois viajantes ainda seguiriam a costa sul-americana até o golfo de Pária, antes de subir ao Caribe e regressar à Europa. Essas regiões, no entanto, já haviam sido navegadas e mapeadas por Colombo e por Juan de la Cosa - aquele mesmo autor do mapa que atesta a viagem de Pinzón. O curioso é que, diferentemente do que aconteceu com Duarte Pacheco, boa parte do litoral que os dois percorreram estava na zona de soberania portuguesa de acordo com o Tratado de Tordesilhas.

Papel de Cabral

Pedro Álvares Cabral saiu de Portugal com destino a Índia em março de 1500. Não há dúvida de que chegou, tomou posse, rezou missa, fincou cruz e deu início ao processo que tornou o Brasil uma colônia portuguesa - e por isso mesmo ficou com a fama de descobridor. A controvérsia sobre sua viagem é se teria chegado por acidente ou intenção, mas até isso não é mais mistério. Sabe-se que, no local em que deveria tomar o rumo leste, os ventos sopravam para esse mesmo lado. Logo, é improvável que tenha vindo para oeste por acidente.

O que se discute é se veio por ordem do rei ou dos conselheiros reais, nobres e comerciantes que discordavam da viagem para a Índia. "Os mercadores privados e a maioria do conselho do rei preferiam a expansão no Atlântico, onde não era necessário entrar em conflito com os muçulmanos e os monopólios reais eram restritos a alguns portos e produtos", explica o historiador Thomaz. "Para o rei, o Brasil constituiria somente uma escala para a Índia, mas para os mercadores privados era a perspectiva de um novo mundo a explorar." Portanto, é bem possível que o fidalgo Cabral tenha resolvido contrariar o rei.

A hipótese poderia explicar o fato de ter sido "esquecido" pelo monarca, que nunca mais o escolheu para qualquer missão em mar ou em terra. Cabral morreu sem glória, sem retrato ou busto de descobridor do Brasil. Os outros descobridores não tiveram melhor sorte. Duarte Pacheco ainda foi tratado com honra por dom Manuel, que lhe deu o comando de uma armada para as Índias e o cargo de governador de São Jorge da Mina - posições muito lucrativas. Com a ascensão de dom João 3º, porém, ele seria perseguido e preso sob a acusação de desvio de ouro. Pinzón faria outra viagem ao Novo Mundo, na qual teria sido o primeiro europeu a encontrar os astecas, no México, mas morreu endividado, em 1514. Da vida de Lepe sabe-se menos ainda. Morreu em Portugal em 1515 e não se tem notícia nem de onde foi enterrado.

Dificilmente saberemos se outras pessoas não teriam chegado ao litoral brasileiro antes desses homens. A história dessas viagens foi preservada em poucos documentos. Quantas outras, de menor importância ou maior segredo, não teriam sido feitas? Quando Martim Afonso de Souza veio para o sul do Brasil, em 1530, encontrou por aqui certo Bacharel de Cananeia, degredado europeu apresentado em diversas crônicas do século 16. Os registros da viagem de Afonso dizem que o Bacharel estava no Brasil havia 30 anos. A maioria dos historiadores defende que ele fora deixado aqui por Gonçalo Coelho, em 1502, mas alguns dizem que isso teria acontecido em 1499, numa suposta expedição de Bartolomeu Dias ao Brasil - de qualquer forma, ele estava justamente onde passava o meridiano de Tordesilhas.

Não há evidências concretas de qualquer outra viagem no Atlântico Sul entre 1488 e 1498. Apesar da falta de provas, provavelmente houve, sim, outras expedições à região. Vasco da Gama percorreu no caminho para a Índia a mesma rota que os velejadores fazem até hoje entre a Europa e o sul da África. Gama teria acertado o melhor caminho, de primeira, por pura sorte? Ou teria feito isso depois de um longo e meticuloso período de viagens de exploração? Domingues arremata: "Essa é uma pergunta que se faz há mais de 100 anos".

A briga pelo desconhecido

Tordesilhas criou a suspeita de que Portugal já sabia da existência do Brasil.


O Tratado de Tordesilhas ficou famoso por ter divido, em 1494, um mundo que não se conhecia entre portugueses e espanhóis. O primeiro acordo a fazer isso, no entanto, foi firmado entre os dois países na cidade lusa de Alcáçovas, em 1479, quando a disputa de ambos pelo Mar Oceano começava a se acirrar.

O acordo dividia o Atlântico horizontalmente, com as ilhas descobertas por Colombo na área de soberania lusitana. Por isso, Castela buscou um novo tratado. Dom João 2º recusou as contrapropostas castelhanas de divisão vertical - com linhas a 100, depois a 270 e a 350 léguas a oeste de Cabo Verde - e ameaçou ir à guerra até garantir uma margem de 370 léguas. Por que o monarca português insistiu tanto em 370 léguas? Para os reis católicos, ele já sabia da existência de terras no Atlântico sul. Até hoje, a suspeita nunca foi confirmada, mas, curiosamente, essa raia garantiu a Portugal uma boa parcela do Novo Mundo. E, se não fosse pela persistência de dom João 2º, nunca teria existido o Brasil como o conhecemos hoje.

O segredo da volta pelo largo

Portugueses foram os primeiros a dominar a navegação em alto-mar




No século 14, Portugal era principal potência marítima do mundo. As caravelas foram uma de suas principais invenções, ao lado de equipamentos e cálculos astronômicos, que os permitiam situar-se no mar mesmo longe da costa. Assim, descobriram que no oceano a menor distância entre dois pontos nem sempre é uma reta. Quando iam para o sul, enfrentavam um constante vento para o norte ao passar do Equador, o que tornava a viagem muito lenta. Então, aprenderam a seguir os ventos que existem na zona tropical atlântica. Para ir ao sul da África, seguiam para oeste até onde o vento fazia a curva para então rumar para leste. A volta pelo largo fazia os portugueses passarem raspando pela costa brasileira. Se dom João organizou viagens para conhecer ventos e correntezas do Atlântico Sul após a viagem de Bartolomeu Dias em 1488 e antes de Tordesilhas, é possível que seus exploradores tenham visto indícios de terra - ou até terra mesmo - antes de 1494.

A ilha imaginária

"Brazil", terra mitológica de origem celta, aparecia em mapas da Idade Média.


Antes da Era dos Descobrimentos, os europeus tinham várias superstições em relação ao mar aberto. Algumas eram assustadoras, como as de monstros marinhos. Outras eram sedutoras, como as que falavam de Hy Brazil, ilha mitológica e paradisíaca situada em algum lugar do Atlântico. Sua origem provável é uma lenda celta, e ela é mais frequentemente localizada a oeste da Irlanda, um dos lugares onde esse povo viveu. Sua posição, no entanto, mudava a cada 7 anos, ou a cada vez que era avistada, dependendo da versão da lenda. Questões geográficas à parte, essa é a ilha imaginária mais desenhada nos mapas europeus dos séculos 14 e 15. O nome da ilha, a propósito, é uma das dezenas de explicações sobre o batismo de nosso país. O termo "brasil" já era usado desde a Idade Média para madeiras de tinta encontradas na Ásia. Quando os portugueses encontraram uma terra com esse tipo de madeira, a existência de um ilha com nome semelhante em tantos mapas teria ajudado o apelido a emplacar.


A Construção do Brasil, Jorge Couto, Forense, 2011